Buchrá, comida árabe, “Rainha do Quibe”: casal de refugiados sírios faz em Teresópolis a melhor esfirra de todos os tempos

A esfirra é um dos salgados mais populares no Rio de Janeiro, e no Brasil. Disseminado pelo país por famílias de imigrantes árabes, especialmente do Líbano e da Síria, acabou inspirando variações como as empanadas, estrela das mesas ibero-americanas, ícone da gastronomia argentina, e de muitos vizinhos que “hablam español”.

Outro dia fiz uma lista de melhores esfirras do Rio, e elegi as da Padaria Bassil, no Saara. Quis o destino que dez dias depois eu fosse apresentado à esfirra que considero hoje a melhor que já comi na vida inteira, e voltarei muitas vezes para ter essa certeza, e também irei à Bassil, e ao Baalbeck da Galeria Menescal, para comprovar essa teoria.

Já tinha ouvido falar do casal de sírios que andava servindo esfirras, quibes, pães árabes e umas outras iguarias de seu país, nos fins de semana, na Feirinha do Alto. Tanto que, certa vez, ao visitar a Brewrosca do amigo cervejeiro Andre “Nahle” Nader, onde bebo uma das minhas IPAS preferidas, a Hopium, fui até a barraca deles, para matar a fome, já que naquele dia só havia queijos para petiscar. Estava muito cheio, uma fila imensa, e a comida (de ótima aparência) sendo servida lentamente, naquele esquema artesanal, que no fundo a gente adora. Mas demora. E como fila é algo que tento evitar, já que perder tempo é algo demasiadamente chato, acabei indo embora, mesmo salivando, deixando para conferir os salgados sírios numa outra ocasião.

Demorou uns 40 dias para que finalmente eu pudesse provar as esfirras e quibes preparados por Buchrá, que trabalha ao lado no marido, Basam al Mela, no pequeno restaurante que leva o seu nome.

Os quibes são fritos aos poucos, uma a um, e estão sempre fresquinhos, quentinhos – Foto de Bruno Agostini do Instagram @brunoagostinifoto

Escrevi assim, no Instagram:

“Buchrá, comida árabe, “Rainha do Quibe”. Um casal de refugiados sírios, Basam Al Mela e Buchrá, que estão há três anos no Brasil. Pra minha sorte tinham parentes morando em Teresópolis, vivendo aqui há 55 anos. Então,vieram para cá. Eles fazem quibes, esfirras, kebabs e pães árabes. São deliciosos. Ficam na rua Francisco Sá 291, na Várzea. Um achado!!!
Sou comedor de quibes e esfirras desde a primeira infância.
Não lembro de quibes mais deliciosos, fritos na hora. Incrível mesmo. As esfirras são montadas e assadas, também na hora do pedido, em forno de barro. Incrível. Na minha primeira visita já fiquei viciado. Ainda mais com o molho de pimenta da casa, saboroso e picante na medida certa (e o molho de alho, também feito por eles, cremoso e de sabor delicado). Provei o quibe, e duas esfirras, de carne e de ricota com espinafre (R$ 5 cada).
Nos fins de semana eles montam barraca na Feirinha do Alto, mas fica muito cheio: tentei provar uma vez e não consegui. Adorei saber da loja, aberta há um mês. E não tenho dúvidas em afirmar: é das melhores coisas que se pode comer na cidade. O quibe é o melhor que já comi. E a esfirra? No mínimo, no nível da Padaria Bassil. Massa fina e delicada, recheio rico e saboroso, com tempero perfeito. Duvida? Vem provar. Tudo #semfiltro #teresopolis #viagemcomfarofa #comidaarabe @ Teresópolis/RJ”.

(Deixo aqui o link, para o post, replicado no Facebook).

Esfirra de carne saindo do forno de barro: elas são montadas e assadas na hora do pedido – Foto de Bruno Agostini do Instagram @brunoagostinifoto

Hoje, passados dois dias, eu penso naquela esfirra de carne, e tenho essa certeza. Essa é a melhor esfirra que já comi na vida inteira, e estou incluindo aí algumas visitas que já fiz a países árabes, como Catar, Dubai, Abu Dhabi e Bahrein. Nem lá comi esfirras melhores. Passei a infância e adolescência convivendo com famílias libanesas, o que me aproximou ainda mais da cozinha árabe. E estou certo disso; foi não só a melhor esfirra de minha vida inteira, mas o quibe também.

Pense em uma esfirra com forma e conteúdo caseiros, artesanais, com tempero de família, desse tipo de comida que raramente encontramos em restaurantes, mas só mesmo nas nossas residências, e de parentes e amigos, aquele sabor que reconforta e inspira, que nos transporta no tempo, e nos faz sentir acolhidos, pela boca, pelo perfume.

No Buchrá eu tive essa sensação, de estar comendo na casa de uma família, que cozinhou para o convidado com todo o carinho. O lugar tem esse espírito, e de fato é assim que ele é. Quando chegamos vemos a vitrine aquecido com dois ou três quibes, porque eles vão sendo fritos aos poucos, um a um, e estão sempre fresquinhos, prontos para serem devorados. As esfirras são montadas e assadas na hora do pedido. E quando entram no forno de barro, muito quente – aquecido a gás – logo o perfume de massa se espalha, aguçando o paladar. Demora um pouco, e espere por cerca de cinco minutos até que o salgado chegue à sua mesa, fumegante. Cuidado com a temperatura do recheio. Quando falamos em caseiro, artesanal, entenda também como uma massa delicada e fina, que abriga o recheio farto de carne, com tempero tão na medida exata que nem sei. A esfirra deve ser comida como uma fatia suculenta de pizza. A melhor maneira é dobrá-la ao meio, e começar mordendo a ponta. É molhado e suculento, a ponto de deliciosamente se desmanchar. Vale usar a pimenta da casa, não muito forte. E o molho de alho, cremoso, feito ali, é fundamental. Use o prato, porque cairão pedaços, que merecem ser comidos. Ao final, estamos lambuzados, com as mãos impregnadas por aroma da esfirra.

Dá vontade de pedir mais uma.

SERVIÇO
Buchrá: Rua Francisco Sá 291, Várzea, Teresópolis. Aos sábados e domingos montam barraca na Feirinha do Alto, próximo ao ponto final de ônibus.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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