Um roteiro gastronômico para aproveitar o inverno em Visconde de Mauá: bares, cervejas e uma seleção com os cinco melhores restaurantes da cidade

Visconde de Mauá é deliciosa no verão. A Cachoeira do Escorrega cheia de água, o clima propício a passar o dia de bermuda e chinelo, bebendo cerveja gelada, mergulhando no Rio Preto e nas piscinas naturais; e petiscando ao ar livre. As diárias das pousadas mais baixas, e os lugares mais vazios. Tudo verdade.

Mas é inegável que no outono-inverno este lugar mágico e místico fica muito mais gostoso e lindo. As trilhas estão secas, pela falta de chuvas, para alegria de montanhistas, ciclistas, motoqueiros e motoristas , e cavaleiros e amazonas.  Os dias geralmente são maravilhosos, ensolarados, uma luz reconfortante. Mas quando o sol se esconde… Ao menos as noites são quase sempre de céu claro, e a lua e as estrelas colaboram e muito para o cenário.

A adega da Pousada Teras Altas: mais de 120 rótulos e mil garrafas – Foto de Bruno Agostini

Entre os destinos do Estado do Rio acessíveis facilmente por carro, Mauá é o mais alto, e frio. A 1.600 metros de altura, com termômetros girando entre 5 e 15 °C, às vezes um pouco menos, às vezes um pouco mais, o grande atrativo turístico local é mesmo o frio, as pousadas aconchegantes e suas lareiras benditas e – principalmente – a comida. Como é bom comer em Mauá. Não apenas porque o clima pede, mas também porque não faltam lugares especiais para se comer por lá, num curto espaço geográfico, uma parte de asfalto ruim, outra parte de terra, o que sempre dá uns contornos de aventura ao passeio.

Empório do Gosto, no restaurante Gosto com Gosto: produtos da casa – Foto de Bruno Agostini

Trutas e queijos de produção local, e nesta época do ano, o pinhão, estão entre as iguarias obrigatórias no roteiro (aliás, começou na sexta passada a Temporada do Pinhão, que ocupa todo o mês de junho, terminando só no dia 30: para ver a programação, clique aqui). A cozinha mineira é outro traço da gastronomia local, afinal estamos na divisa entre o Rio e Minas, e boa parte dos melhores restaurantes de Mauá está justamente do lá de lá, em Maringá-Minas, como se diz, mas no fundo tudo junto forma um mesmo destino, que tem esse acento mineiro e um clima rural.

Casa Beatles, um tributo á banda, e ao rock – Foto de Bruno Agostini

Antes de indicar os meus cinco restaurantes preferidos lá no alto da Serra da Mantiqueira, não posso deixar de lembrar do bar mais legal do pedaço. Casa Beatles, quase um museu temático (e etílico) sobre o quarteto inglês.  Há boas cervejas artesanais, e petiscos. A decoração pode nos deixar por horas e horas vendo os cartazes, quadros e toda a sorte de enfeite, lembranças de viagem e uma respeitável coleção de CDs, que é usada na composição da trilha sonora, outro ponto alto da casa – aliás, parece mesmo que estamos na sala de uns amigos: só falta abrirmos a geladeira e pegar uma cerveja – escolher umas músicas a gente pode, e a lista é vasta, com ênfase no rock. O bar fica logo na entrada de Mauá, praticamente em frente ao restaurante Gosto com Gosto,  um clássico local. Numa viagem perfeita por Mauá, todas as noites deveriam começar – ou terminar – na Casa Beatles (Rua Presidente Wenceslau Braz, 133, Vila de Visconde de Mauá, Resende; tel. 24-99288-0966; página do Facebook).

Degustação na choperia Maresia de Mauá – Foto de Bruno Agostini

E, para uma cerveja no meio da tarde, a melhor pedida é a Choperia Maresia de Mauá, ao lado do Warabi, misto de pousada e restaurante japonês, ambos muito recomendáveis. Para provar todas as receitas de cerveja feitas na casa, na fábrica envidraçada logo ao lado, vale pedir a régua de degustação, para escolher uma para chamar de sua. Choperia Maresia de Mauá (Estrada da Maromba Km 7,5; Maringá, Itatiaia; tel. 24-3387-1143).

Café Maringá, na Alameda Gastronômica em Maringa-Minas – Foto de Bruno Agostini

Ainda não pude conferir, o que farei em breve, mas o Café Maringá – Bistrô (página do Facebook) também me foi bem recomendado para ir comer sanduíches e massas caseiras, regados por cervejas e vinhos. Fica bem no miolo da chamada Alameda Gastronômica, em Maringá-Minas, que enfileira pelo menos duas dezenas de bares e restaurantes em seus cerca de mil metros de extensão.

Biergarten: seleção ampla e variada de rótulos – Foto de Bruno Agostini

A melhor seleção de cervejas está bem perto dali, no BierGarten, junto ao restaurante Champignon, que tem uma comida bem boa, e que pode ser servida neste anexo de frente para a rua, com direito a piscina nos fundos, o que cria um clima de casa de amigos. O garçom me disse que quem quiser pode mergulhar.

Vale dar uma espiada na loja O Fino da Roça – Foto de Bruno Agostini

Não muito longe, bastando atravessar a pinguela sobre o Rio que divide o Rio de Janeiro de Minas Gerais, está outro lugar onde sempre vou, O Fino da Roça (página do Facebook), que vende uma série de produtos, tipo geleias, compotas, licores, biscoitos caseiros, queijos, cachaças, grande parte de produção local.

Há uma imensa oferta de fondues, picanhas na pedra e outras generalidades serranas. Eu nunca entrei nessas casas, não me lembro de ter comido fondue alguma vez em Mauá. É o tipo da coisa que prefiro fazer em casa, o mesmo vale para picanha na pedra. Ali na área de Maringá tem um monte desses, e ficam até cheios. Mas não é a minha praia.

Mas existe um time de 15 ou 20 lugares onde a comida é muito boa, e isso inclui algumas pousadas, caso da Mauá Brasil e da Terra da Luz (esta geralmente tem shows de jazz nos fins de semana, programação clássica da noite de Mauá já se vão mais de 15 anos: este mês, por exemplo, tem Victor Biglione, Taryn Szpilman Trio e outros músicos do primeiro time).

Selecionamos os nossos cinco restaurantes preferidos.  E explicamos o porquê.

babel Restaurante: truta salmonada com arroz negro, pupunha, limão siciliano e palha de poró – Foto de Bruno Agostini

– Babel Restaurante: Entre todos os restaurantes da cidade é o de caráter mais autoral, mas sem deixar de explorar os ingredientes locais – a truta servida de várias formas é pedido essencial. Comandada pelo casal André Murray e Daniela Keiko, a casa fica em um local bucólico, desses que a gente chega e não tem vontade de sair. A carta de vinhos tem escolhas bem acertas, e há cervejas como Paulaner para escolher. No meio de tanto verde, o salão envidraçado pede uma refeição calma e contemplativa. Vale pedir o couvert, com pães, amuse bouche do dia, azeites aromatizados etc. Aí, podemos ir pedindo: ceviche de truta salmonada com laranja e gengibre; brie à milanesa com molho picante de goiabada, fritada de cogumelos com patê de foie ao licor de cassis. E seguimos com massas caseiras e risotos bem preparados;  e pratos que são a cara desta estação, como o pato  com molho de jabuticaba e pipoca de arroz selvagem; ou a costeleta de leitoa, com aquela já citada goiabada picante, com risoto de gorgonzola e crisp de abobrinha. Para encerrar, vá no mix de sobremesas.
Babel Restaurante : Vale do Pavão, s/nº, Visconde de Mauá, Resende. Tel.: (24) 99977-0152. www.babelrestaurante.com

Aconchego, boa mesa e muitos livros no Bistrô das Meninas – Foto de Bruno Agostini

– Bistrô das Meninas: Além de funcionar em um chalé aconchegante, este é um lugar para se a qualquer hora, seja para ume refeição, um café no meio da tarde ou apenas para vasculhar as prateleiras da livraria que funciona na sala anexa. São poucas mesas, e um cardápio que – embora seja enxuto – apresenta pratos variados, incluindo doces, tortas, sanduíches, tábuas fe frios e cafés, quase tudo feito na casa, inaugurada em 2003, por Noemi del Passo e Renata Nesti, “as meninas”. Digno de nota é o hambúrguer de pato, com foie gras, fritas, purê de maçã e salada. No menu encontramos receitas típicas de bistrô, incluindo croque monsieur, salada de pato curado, sopa de cebola gratinada, steak au poivre e creme brûlée, além de algumas criações com ingredientes locais, tipo a truta ao molho de gengibre e laranja com arroz negro, ou esse mesmo peixe em envolto em massa folheada. Os pratos mudam regularmente, e sempre há sugestões nas três lousas. Pra beber, que tal um kir imperial?
Bistrô das Meninas: Alameda Gastronômica de Maringá-Minas, s/nº Bocaina de Minas, MG. Tel. (24) 3387-1461. Página do Facebook

Tutu com costelinha, dessas que se desmancham: especialidade do Gosto com Gosto – Foto de Bruno Agostini

– Gosto com Gosto:  Um lugar desses onde a gente entra e não tem como sair de lá triste. A cozinha mineira ali é tratada com carinho pela chef Mônica Rangel, que cuida da casa com o marido, Cláudio – o responsável pela escolha dos vinhos e principalmente das cachaças, que são uma das estrelas do lugar, com uma carta que deve chegar aos mil rótulos, expostos de modo a formar uma espécie de museu da pinga. O Prato da Boa Lembrança em vigor este ano é um arroz de rabada. No cardápio regular do restaurante passeamos para cozinha mineira, das fazendas, além de outros pratos igualmente reconfortantes, como bife à milanesa com fritas, arroz e feijão; e o “Mexidão da Zu”, clássico local, misturando delicadamente arroz, feijão, cubinhos de filé mignon, ovos, bacon e linguiça. Não poderiam faltar o feijão tropeiro e o tutu (em ambos os casos, acompanhados de costelinha cozida em baixa temperatura), além de escondidinhos de linguiça sob o purê de mandioca, e uma tábua de picanha. Há uma linha de produtos com assinatura da casa, como as linguiças são feitas temperos e uma série de conservas (um bufê com vários doces é o encerramento obrigatório ali: experimente o doce de casca de limão recheado com doce de leite cremoso)
Gosto com Gosto: Rua Wenceslau Braz, 148, Vila de Visconde de Mauá. Tel. (24) 3387-1382. www.gostocomgosto.com.br 

Rosmarinus Officinalis: truta salmonada, com flor de capuchina – Foto de Bruno Agostini

-Rosmarinus Officinalis: Uma casa de campo que serve comida italiana, e muito bem preparada. É aquele tipo de restaurante que todo mundo gosta. Quase sempre que vou a Mauá eu como lá. Já devo ter ido umas seis ou sete vezes, mais o menos o quanto que já fui ao Gosto com Gosto e á Pousada Terras Altas. Rodeados pelo verde ao redor, os clientes as mesas do salão envidraçado, que tem pinta de casa de família, o que de fato foi até a abertura do restaurante do chef Júlio Buschinelli. Por verde entenda também uma grande horta, que fornece muitas folhas e temperos para a cozinha. Carpaccio de truta salmonada e compota de tomate com  mozzarella de búfala são as duas melhores pedidas de entrada. Há boas massas, e um destaque do cardápio é a chamada Truta Visconde de Mauá, assim definido no site do restaurante (acho que vale republicar): “A criação de truta em Visconde de Mauá está vinculada aos ingredientes utilizados pelos moradores da região, como: a batata, usada por colonizadores alemães, a aveia, utilizada pelos hippies no início dos anos 60 e o capim limão e azedinha, folhas utilizadas em chás e saladas pelos moradores”.
Rosmarinus Officinalis: Estrada Mauá-Maringá, km 1,Visconde de Mauá. Tel. (24) 3387-1550. www.rosmarinus.com.br

Truta PANC na Pousada Terras Altas – Foto de Bruno Agostini (do Instagram @brunoagostinifito)

– Terras Altas: A pousada do enófilo Paulinho Gomes representa bem as suas predileções, e conta com a mais bela adega da região, ao menos entre as abertas ao público, com capacidade para mais de mil vinhos.  São mais de 100 rótulos escolhidos por ele. Com paredes de pedra e uma mesa, é um ótimo lugar para se começar uma refeição, com um brinde. Fica no subsolo da construção principal da pousada – que é pet friendly -Terras Altas, fica junto ao restaurante, que também traduz outra paixão do empresário: a gastronomia, com especial interesse pelas PANCs, que estão em vários pratos do cardápio, colhidas pelas matas da Serra da Mantiqueira. Há um salão mais reservado, com lareira sempre acessa no inverno. Duas vezes por ano é realizado o Jantar dos Chefs, com a participação de Flávia Quaresma e Paulo Pinho, além do consultor de vinhos e experiente cozinheiro Paulo Nicolay, que recebem convidados a cada edição, e alguns pratos de sucesso ficam no menu. Uma sugestão é a truta PANC, com peixe criado na cidade, geleia de hibisco, com as suas flores, purê de açucena com aipim,  cravinho-da-serra e semente de abóbora. Sopas variam diariamente, e entre os pratos mais pedidos está o picadinho.  São mais alguns ótimos motivos para se hospedar por lá mesmo. Quem não está hospedado, aliás, deve reservar.  Os chalés são muito bons, alguns com hidromassagem, sauna, lareira e ofurô.
Pousada Terras Altas: RJ-151, km 10, Visconde de Mauá. Tels. (24) 3387-2132 e 99858-1756. www.pousadaterrasaltas.com.br

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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