7 perguntas para Isadora Bello Fornari, especialista em cachaça

Por Bruno Agostini

“Caipirinha com cachaça boa? E com cachaça envelhecida, pode? E drinques? Ainda restam algumas vagas para o curso inédito que trará a musa Jessica Sanchez explicando mais sobre as combinações, eu ensinando como vender cachaça pro consumidor ao lado de Mauricio Maia, contando tudo sobre a caninha, desde produção, madeiras, degustação e harmonizações.”

Isadora Bello Fornari: “Não há uma cachaça igual a outra”

Palavras de Isadora Bello Fornari, uma das maiores especialistas do país quando o assunto é cachaça, tratando a bebida com graça e sabedoria – e que no ano passado apresentou a série “Bendita Cachaça”, da GloboSat (para saber mais, clique aqui e aqui).

Eu não poderia apresentar melhor o evento que acontece em quatro edições, uma na Barra, amanhã e domingo, dias 21 e 22 de janeiro, outra em Botafogo, segunda e terça, dias 23 e 24. Parece que finalmente o brasileiro descobriu que a cachaça é uma bebida incrível, que nada fica a dever aos melhores destilados do mundo.

Para saber mais sobre o evento, o link para a página no Facebook do evento.
Em tempo: o Rio ganhou esta semana um espaço dedicado à cana, o Centro Cultural Cachaça Social Club. Para saber mais, leia este texto aqui, do amigo Dirley Fernandes, em O Dia.

————————-7 perguntas para Isadora Bello Fornari—————————

VCF: O que difere a cachaça de outras bebidas destiladas?
Isadora: Embora possua semelhanças com várias bebidas destiladas, a cachaça artesanal possui características únicas. Quimicamente falando, ela é uma bebida monodestilada (boa) e extremante complexa devido a fatores de produção, e a diversidade exclusiva da nossas madeiras e suas combinações. Poeticamente falando, cada cachaça é uma surpresa, enxergo que a cachaça reserva ainda um mistério, um charme só dela derivado da imensidão que o Brasil tem. Cada uma delas carrega um pedacinho das tradições, da geografia, dos costumes, da flora do nosso país. É como se ela entregasse em uma sensação, uma história que só não se conta, se sente.

VCF: E o que difere uma cachaça da outra?
Isadora: Elas são únicas. Não há uma cachaça igual a outra em milhares de rótulos espalhados. Cada uma é uma surpresa que reserva todos detalhes particulares do território, do tipo de produção e ambiente, da criatividade e condições de cada produtor. São variáveis fatoriais. A cana, a moagem, fermentação, o armazenamento, as famílias…Cada um tem uma assinatura.

VCF: Porque, mesmo que a qualidade média tenha melhorado muito, e que tenham surgido centenas de ótimos produtores nos últimos anos, a cachaça ainda encontra resistência do consumidor?
Isadora: A cachaça sempre foi muito consumida mas desde a época colonial cantada como coisa ruim e de bêbado. Nessa época também acredito que tenha sido plantado a cultura de que tudo do Brasil “não presta”. Hoje, ser cachaceiro é sinônimo de beber sem responsabilidade. E, basta ver, boa parte da população vive falando mau da própria pátria e preferindo produtos de fora. Nossa cultura não valoriza o país. Enquanto não mudarmos a visão e postura sobre o Brasil desde a criação de nossos filhos, não teremos um futuro diferente. Ninguém vai tentar melhorar algo proferido como ruim.
Porém, no caso das cachaças, enxergo uma descoberta pela qualidade e diversidade sensorial que ela oferece. Acredito ser resultado de profissionais dedicados em produção e promoção, uma melhor distribuição e mercado cada vez mais em busca de  surpresas nos sentidos, em busca dessas experiências.

VCF: Muito se fala das cachaças mineiras, das nordestinas, e – entre as do Rio de Janeiro – das de Paraty e da região de Campos? Mas as melhores cachaças dos últimos anos são gaúchas, como Weber Haus, Casa Bucco e Flor do Vale. Procede a informação? Por que?
Isadora: Bem, gosto de dizer que não há “a melhor” cachaça, o que existe é a melhor naquele momento. Como se diz: “A melhor é a próxima!”. Sobre o destaque das gaúchas em campeonatos estamos falando de tradição X inovação. Há muitos produtores artesanais que se acomodaram no tempo e talvez não enxergaram a cachaça que produzem como um produto tão bem quanto os produtores do Sul. Eles lidam cuidadosamente também na produção mas conseguiram com muito profissionalismo e ousadia ganhar mercado. A Weber Haus acaba de lançar um blend de 7 (se-te!) madeiras! Isso reflete toda complexidade que querem oferecer e muita inovação para poder elaborar isso.
Mas não podemos generalizar quanto a questão regional. Tem bons produtores agindo com solidez em todos estados. Produtores como a Leblon, de Minas Gerais, e a Tellura do Rio de Janeiro, toparam prontamente apoiar os custos do curso para torná-lo mais acessível e ajudar a desenvolver a categoria como um todo, não a marca deles somente. Isso reflete a proporção que o mercado está tomando: a demanda está cada dia maior!

VCF: Você sente algum tipo de preconceito, em relação à bebida, e por uma mulher trabalhar com ela?
Isadora: Acredito que o preconceito com o que é do Brasil está mudando. A cachaça é um dos produtos artesanais fenomenais que só nós fazemos. Eu e muita gente estamos trabalhando para isso. No meu caso, a cachaça é meu veículo para fazer as pessoas se questionarem, olharem para si e perguntarem o quanto elas conhecem, quanto se orgulham e quanto amam seu próprio país. Porque, afinal, a gente só cuida do que ama. Não sou a favor de generalizar em nenhum aspecto. Somos indivíduos únicos e os contextos diferentes. A missão que tenho com a cachaça é maior que eu, se trata do meu país. Ser mulher é uma característica, não um limitante. Assim como o jeito que lido com elas. Momentos complicados derivados de conceitos errados todos já passamos, mas temos que seguir mesmo assim, não é mesmo?

VCF: Como a cachaça chegou até você?
Isadora: Nasci com ela! A cachaça sempre fez parte da minha vida, meu pai é um apreciador de boas bebidas e a cachaça artesanal sempre foi apresentada como excelente bebida e tempero.

VCF: Como será o evento no Rio?
Isadora: Esse projeto surgiu da necessidade de abastecer de informações os multiplicadores da cachaça. Que são, principalmente garçons e apreciadores. Esse evento foi pensado para fazer de cada bebedor, interessado, um promotor da cachaça. História, curiosidades, avaliação e percepção sensorial, copos e taças ideais, como servir, temperatura ideal, harmonização e drinques usando essa vastidão de possibilidades que só a cachaça oferece. O objetivo é que, depois do curso, mesmo sentado com familiares na própria casa, todos encantem cada vez mais gente ao mundo da nossa caninha.

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Para saber mais, um vídeo, produzido pelo jornal O Globo.

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Para saber mais, leia esta reportagem do Estadão, de Mauricio Maia, sobre o serviço de cachaça nos restaurantes.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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