Um dia no Castello di Ama, coração da Toscana, com verticais e muitas receitas tradicionais

Fotos de Bruno Agostini

Fazer uma vertical de um grande vinho é um fetiche de qualquer enófilo. Se isso acontecer na própria vinícola, e  na presença do enólogo, é como um sonho.

Pois a degustação de 11 safras do Castello di Ama Vignetto Bellavista, um Chianti Classico monumental, que aconteceu na propriedade, localizada no coração da região de Chianti, foi uma das grandes experiências de que pude participar. Inesquecível.

Uma vertical é como se fosse um retrato de família, nesse caso, com 11 membros. Começamos com a safra 1982, a primeira deste emblemático rótulo, um dos melhore da mais tradicional dos vinhos da Itália, cuja qualidade pode variar do medíocre ao sublime. O Castello di Ama está no time dos monstros sagrados dessa denominação.

A safra de 1982 era como se fosse a nonna dessa família, a origem de tudo: foi o primeiro ano de Marco Pallanti, e a estreia do Castello di Ama, que pode ser considerado um vinho revolucionário para Chianti. Degustamos, ainda, as safras 2010 e 2011, que sequer podem ser considerados vinhos bebês: são ainda fetos no útero materno, no caso, as barricas, onde ainda repousam antes de serem engarrafados. Foi uma prova história, um retrato magnífico dessa família de vinhos.

Pois, como dizia, começamos com a safra 1982. Sem dúvida, foi o vinho que mais me deu prazer, entre todos. Como  apreciador de vinhos antigos, fiquei encantado por este. Apesar da idade avançada, é um vinho muito vivo, com ótima acidez, numa linda coloração, indo para tijolo, com as bordas levemente alaranjadas. No nariz, apresenta notas balsâmicas, com toques florais, de rosa e violeta, com cogumelos, licor de cereja, e um gostoso toque mentolado, e um pouquinho de café, canela e alcaçuz, com uma oxidação que lhe aporta ainda mais complexidade, e uma pitada de iodo. Na boca, é extremamente elegante, com taninos finos, ainda que selvagens, algo que o tempo conseguiu domar, mas não apagar. Um show, um espetáculo.

Dali, pulamos seis anos, indo direto para a safra de 1988. Outra belezura. Muito elegante, este num estilo mais bordalês, mais concentrado, com toque de pimenta e cereja, e boa dose de fruta bem madura, em compota. Muito vivo, e capaz de gerar grande prazer ao ser bebido hoje.

Dois anos mais, e chegamos ao ano de 1990. Na nariz, primeiro sentidos aromas de trufas, uma beleza. Elegante, profundo e concentrado, tem notas balsâmicas, com cedro em evidência. Vinhaço muito equilibrado, com ótima acidez, taninos bem presentes,  mas macios. Um veludo, com sabor de cereja, com persistência quase eterna.

Então, foi servida a safra de 1993, mais uma belezura, vinho rico e poderoso, num estilo bem bordalês, com aromas de framboesa bem madura, e muita fruta vermelha, um passeio no bosque, com eucalipto, deixando na boca um rastro de casca de laranja caramelizada e um toque floral, com uma grande persistência.

Quando chegou o vinho de 1995, a primeira coisa que a taça trazia eram aromas de alcaçuz, com pimenta, canela, geleia de cereja. Está mar avilhoso para ser bebido agora, equilibrando potência com uma evolução bem resolvida, um vinho extremamente harmônico e elegante, com ótima acidez e frescor.

Dali fomos direto ao ano de 2001, mais uma maravilha, em ótimo ponto para ser degustado agora, ainda que esteja jovem. Um vinho sensual, com lavanda, tomilho, cedro, alcaçuz e canela, com um toque floral de violeta, e no fundo, um pouco de café e toffee, caramelo. Na boa, a ótima acidez consegue equilibrar os taninos bem marcados. Beleza pura.

Pulamos, então, para o ano de 2004. Confesso que já estava um tanto cansado de tanto vinho, e diminuindo o ritmo das anotações. Novamente, um vinho intenso e potente, mas sem perder a delicadeza, com muita fruta negra, com aromas de canela e notas balsâmicas.

Dali, percorremos mais dois anos, bebendo a safra de 2006. Um vinho suculento, com muito morango fresco e notas minerais evidentes. Ainda está bem fechado, e promete crescer muito com o tempo.

No jantar, degustamos ainda as safras 1986 e 2007, que é a o ano atualmente em cartaz no Brasil (cerca de R$ 600). Dois lindos vinhos. Mas aí, confesso não lembrar muito dos detalhes.

Lembro que estavam muito bem, ambos, e valorizaram a comida, deliciosa. Mas preferi prestar mais atenção ao nhoque, sublime, e aos feijões brancos, temperados com pimenta do reino moída na hora, e o azeite produzido ali mesmo, no Castello di Ama.

Mas foi unanimidade à mesa: o 2007 é uma grande safra do Vignetto Bellavista.

No fim, terminamos com uma garrafa de Aquavite 2005, aguardente que também podemos chamar de grappa.

No dia seguinte, acordei com essa vista aí da minha janela. Parece até que foi um sonho.

P.S. – Texto de 2012, publicado no meu antigo blog de vinhos chamado Enoteca.

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *