Barolo x Barbaresco (na visão de Angelo Gaja)

Vinhedo em Barbaresco – Foto de Bruno Agostini

Elegantes e misteriosos, com nuances delicadas e certo mistério, o Barbaresco, produzido nos arredores de Alba, no Piemonte, é um vinho feminino por natureza. Seria o oposto do seu vizinho Barolo,  feito a poucos quilômetros de distância, com a mesma uva Nebbiolo, que é robusto, masculino.  “Vinhos têm personalidade, reunindo predicados que podem ser associados às pessoas.  Por essa ótica, um Barolo é, de fato, como se diz, masculino, forte e opulento; enquanto o Barbaresco é mais feminino, delicado, elegante”, diz Angelo Gaja, espécie de embaixador do pequeno vilarejo de Barbaresco, cuja vinícola que carrega o sobrenome da família também faz grandes Barolos.

Parte da linha de vinhos de Angelo Gaja – Foto de Bruno Agostini

Barbaresco é uma das mais famosas e cultuadas denominações de vinhos do mundo, com um time de produtores de primeira linha que inclui o próprio Angelo Gaja, autor de quatro rótulos distintos, um Barbaresco genérico e três exemplares de vinhedos únicos, feitos com uvas de uma determinada parcela: Sorì Tildìn, Sorì San Lorenzo  e Costa Russi, verdadeiras raridades, vinhos que são classificados como Langhe Nebbiolo DOC e disputados por enófilos de todo o mundo.

A pequena cidadezinha no alto de uma colina rodeada de vinhedos agrega outros nomes de peso da enologia italiana, entre produtores maiores, como Pio Cesare e Prunotto, até os menores, como Bruno Giacosa, Poderi di Gallina e Bruno Rocca, que estão entre os que alcançam os melhores resultados nesta DOCG .

Cacho de Nebbiolo, no mvinhedo Bussia, de Barolo – Foto de Bruno Agostini

Frasista dos melhores, Angelo Gaja gosta de fazer analogias entre vinhos e pessoas. Uma de suas frases mais famosas compara a uva Nebbiolo com a Cabernet Sauvigon, fazendo uma suave provocação aos franceses: “A Cabernet Sauvignon é John Wayne, assim como a  Nebbiolo é Marcello Mastroianni. A Cabernet tem uma personalidade forte, é mais  aberto, fácil de entender e dominadora. Se Cabernet fosse um homem, ele iria fazer o seu dever, todas as noites no quarto, mas sempre da mesma maneira. A Nebbiolo, por outro lado, seria , o homem mais pensativo, mais difícil de entender, mas infinitamente mais complexo”, disse certa vez.

Na França também é feita comparação similar entre os vinhos de suas áreas mais celebradas: Bordeaux, terra da Cabernet Sauvignon, da Merlot e da cabernet Franc, entre outras castas que aparecem em proporções menores; e Borgonha, reino da Pinot Noir (isso quando estamos falando de vinhos tintos, porque em relação aos brancos a conversa é outra).

De fato, os vinhos da Borgonha apresentam caráter mais feminino, enquanto os vinhos de Bordeaux seriam mais masculinos. Nos seus melhores exemplares, tendo no mítico Romanée-Conti um modelo eloquente, a Borgonha produz vinhos tintos que conseguem ser, ao mesmo tempo, delicados e profundos, estruturados e macios, amáveis e complexos. Como as grandes mulheres.

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Compartilho, ainda, um texto que escrevi há alguns anos atrás, depois de um memorável encontro com Angelo Gaja, em sua vinícola, em Barbaresco.

 

O produtor italiano Angelo Gaja, em sua vinícola – Foto de Bruno Agostini

Vivendo e aprendendo.

Acho os vinhos do Angelo Gaja uma perfeição.

Como Davi, de Michelangelo; ou a Monalisa, de Da Vinci.

Mas ele, não: “Bruno, não existe vinho perfeito. O que busco nos meus vinhos é a elegância, o equilíbrio. É como uma mulher. Elegância é o oposto de opulência. A opulência se revela toda de uma vez. A elegância carrega certo mistério, tem o refinamento do balanço, o etéreo, a pureza.”

Pois é. Papear com o Angelo Gaja, mais que tudo, é uma aula de vida. Ninguém faz grandes vinhos à toa.

“Um Barolo é, de fato, como se diz, masculino, forte, opulento; enquanto o Barbaresco é mais feminino, delicado, elegante”, comenta.

Hoje, no dia das mulheres, acabei me lembrando de um texto que rascunhei certa vez em um bloco que não sei mais qual, comparando os estilos de vinhos, as uvas, e certas regiões, entre homens e mulheres.

Não me lembro como começava, mas em homenagem ao Gaja, seria algo assim.

 

Mulher é Barbaresco, homem é Barolo

Mulher é Borgonha, homem é Bordeaux

Mulher é Loire, homem é Rhône

Mulher é Cabernet Sauvignon, homem é Merlot

Mulher é Gewürztraminer, homem é Chardonnay

Mulher é fruta, homem é madeira

Mulher é acidez, homem é tanino

Mulher é champanhe, homem é Porto

Mulher é Velho Mundo, homem é Novo Mundo

Mulher é Dão, homem é Douro

Mulher é doce, homem é seco

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E mais:
– Cidades medievais, vinhos e boa mesa temperam o passeio pelo Piemonte
– Roteiro entre Turim e Vercelli, a terra do carnaroli, reúne o melhor da cozinha do Norte da Itália
– Em dez minutos de vídeo, uma didática apresentação sobre Barolo, Nebbiolo e as Langhe. Por Pietro Ratti

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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