Bodega 1900 e Tickets: frente a frente, dois endereços antagônicos e complementares dos irmãos Adriá, em Barcelona

A fachada do Tickets – Foto de Bruno Agostini

Em Barcelona, o Carrer de Tamarit, delimita o passado e o futuro da gastronomia. A rua um pouco afastada das áreas mais turísticas da capital da Catalunha é o endereço de dois dos restaurantes dos irmãos Adriá, um com elementos antigos, olhando para trás, outro mais irreverente, apontando para frente, com roupagem moderna, conceitual, do serviço à cozinha. Frente a frente, os dois lugares se completam. A Bodega 1900 apresenta no nome um ano de referência, com ambiente nostálgico e um cardápio até certo ponto simplista, onde encontramos jamón Joselito bem cortado, camarões fresquíssimos no vapor, quase crus, e uma decoração cheia de referências antigas. Do outro lado da rua, o Tickets Bar faz referências ao cinema, e tem caráter muito distinto, com menu carregado de tecnologia, emoção e graça. Visitar os dois lugares é como brincar de viajar no tempo através do paladar.

Um sonho: produtos Joselito, o melhor! – Foto de Bruno Agostini

E assim, com uma fundamental reserva no Tickets, que tem lotação esgotada todas as noites, peguei um táxi no meu hotel no Passeig de Gràcia. Cerca de dez minutos e 12 euros depois cheguei a esse saboroso encontro entre dois universos complementares da gastronomia. O ontem e o amanhã. Para a Bodega 1900, inaugurada no final do ano passado, não é necessário fazer reserva. Cheguei e fui direto ao balcão, na saleta de entrada, com espírito de mercado, repleto de produtos expostos para venda à clientela, além de um vistoso cortador de frios. Pernas de porco da marca Joselito, latas de anchovas San Filippo, queijos de diversas procedência e outras dessas iguarias marcantes da Espanha apresentam parte do cardápio.

O salão da Bodega 1900 – Foto de Bruno Agostini

Nas paredes azulejadas há fotos e cartazes de propaganda, e justamente em frente ao meu lugar encontro alguns cardápios do mítico El Bulli, que deu fama universal aos irmãos Ferrán e Albert Adriá, este segundo mais à frente dos negócios atualmente. Diversão garantida a leitura desses menus, com pratos instigantes, como mexilhões ao perfume de tangerina com sorbet de açafrão, foie gras com uvas, ostras merengadas e capuccino de favas com menta, entre muitas outras receitas curiosas.

Azeitonas esferificadas: ícone do El Bulli – Foto de Bruno Agostini

O cardápio da Bodega 1900, por outro lado, é um passeio por clássicos à moda antiga. Encontramos um ou outro elemento com pegada contemporânea, como as azeitonas esferificadas, ícone do El Bulli, um dos mais famosos e imitados pratos de autor de toda a história, que hoje podemos encontramos até mesmo em bufês de festas infantis. Pedi uma dupla, lembrando de uns dez anos atrás, quando provei pela primeira vez esta iguaria molecular.  Bom, mas hoje boas azeitonas me deixam mais feliz do que o espocar na boca do caldo concentrado deste óleo vegetal envolto por uma camada fina de alginato.

Baconzitos com nori – Foto de Bruno Agostini

As algas crocantes são uma espécie de Baconzitos artesanais, com sabor de nori. Divertido, mas é bem mais interessante pedir coisas como as anchovas da marca San Filippo, os boquerones à vinagrete ou mesmo o bacalhau com tomate ralado, isso para ficar apenas nas entradinhas, no setor “Para iniciar el vermuteo”, porque, sim, a Bodega 1900 se define como uma “vermuteria”.

No menu, a parte mais sedutora talvez seja “Nuestros ahumados y escabeche caseros”, onde pescamos sabores intensos, como o a cavala defumada, as navajas em escabeche branco, o filé de bonito confitado em molho catalão e o presunto de peito de pato. Um delírio em forma de conservas, receitas do tempo em que não havia geladeiras, e a cozinha tinha como missão preservar os alimentos.

Empanadas crocantes de carne suculenta – Foto de Bruno Agostini

O cardápio não tem grandes arroubos culinários, e esta é uma de suas virtudes. Na outra parte estão listados os cortes de jamón Joselito, um dos objetos gastronômicos mais cobiçados do mundo, o auge da maturação da carne suína. Queijos espanhóis, e não poderia faltar um manchego de grife, no caso o Dehesa de Los Llanos, topo de linha, e algumas receitinhas básicas, muito bem executadas, completam a lista, como pequenos alhos porós em vinagrete, empanadas de carne e algumas carnes na brasa, como corte de Nebraska, muito na moda na Catalunha, e foie gras na brasa, sim, fígado gordo de pato “al carbón”.

Jardín de Lucía, um distinto Albariño que se destaca na carta de vinhos – Foto de Bruno Agostini

Para beber, boa seleção de vinhos, além de uma coquetelaria caprichada, onde brilham os drinques com vermute, incluindo aí versões primorosas de clássicos como Negroni, Dry Martini e Spritz.

Os camarões impecáveis, quase crus – Foto de Bruno Agostini

Ainda levando na boca o sabor marcante e delicado dos camarões quase crus, cruzei a rua para chegar com alguns minutos de antecedência da minha reserva no Tickets, marcada para 21h30.

Um Jerez, para começar, e o uniforme “cinematográfico” – Foto de Bruno Agostini

Novamente fui acomodado no balcão, mas antes vi clientes gentilmente rejeitados por não ter reservas. Salão lotado, movimento quase coreografado de garçons, vestidos com roupas de funcionários de cinema, como bilheteiro e lanterninha.

O salão do Tickets, sempre lotado (reserve!): foto de Bruno Agostini

O serviço, jovial, sem frescuras e simpático, ao mesmo tempo ligeiro, eficiente e capaz de entender as necessidades do comensal, impressiona. Tudo o que pedi correu à perfeição. Pedi pouco, é verdade.

– Deixo o meu jantar nas suas mãos. Sirva-se o que achar que a casa tem de mais interessante. Não vim para economizar, mas não gostaria de uma conta muito superior a 100 euros. Vai me dizendo quanto já gastei, de vez em quando. Para eu controlar. E vamos em frente, confio no seu bom gosto – disse eu para a garçonete que me atendeu quase que com exclusividade naquela noite.

O coquetel sólido do Tickets – Foto de Bruno Agostini

Ela cumpriu a missão com louvor, muitas vezes fracionando as porções em metade, ou até um quarto, cobrando preço proporcional. Daria dez para ela se isso fosse uma prova. E o restaurante mostrou que não está na moda à toa. Come-se muito bem, obrigado, numa sequência de pratos que combina linda apresentação, sabores equilibrados e muitas surpresas pelo caminho, honrando a assinatura da família Adriá. Com o lema “la vida tapa”, a casa é desses lugares para se provar muitos e muitos petiscos. O primeiro passo foi o “coctel sólido”, uma maçã com uma infusão de beterraba e yuzu, ganhando bela coloração avermelhada.

Árvore de groselha: os pratos são lindos e originais – Foto de Bruno Agostini

Depois, a árvore de groselha, um galho seca que carrega lâminas com o sabor ácido da fruta, além de um tempurá de pistache, servido em um delicado saquinho (é delicioso, e impressionante), e uma tapa com base de amendoim, igualmente rica. Na taça, um Jerez Manzanilla, limpando a boca.

O xuxi, no Tickets: uma torradinha com uma bela anchova e sementes de tomate, servido sobre uma base de madeira – Foto de Bruno Agostini

Depois a coisa foi ficando séria. A começar pelo vinho, o Amaren Barrel Fermented 2011, um branco de Rioja de respeito, acompanhou o xuxi, uma torradinha com uma bela anchova e sementes de tomate, servido sobre uma base de madeira.

Mini airbag de queijo: que delicadeza! – Foto de Bruno Agostini

O mini airbag de queijo veio a seguir, e consiste em uma espécie de massa de pão árabe, crocante, recheada com queijo, e com uma quadradinho de queijo manchego por cima, com caviar de azeite de avelã. Vieram apenas dois desses bocadinho. Eu comeria 40.

O delicioso tartare de atum com toque de abacate – Foto de Bruno Agostini

A mil folha de atum é uma alga nori que serve de base para um tartare de atum com toque de abacate, uma bem executada representação de uma combinação clássica.

A “massa sem massa” – Foto de Bruno Agostini

Eis que chega um prato com uma espécie de pene verde, leve e delicado, uma massa “sem massa” feita com manjericão, cujo nome oficial é “macarrones sin pasta de albahaca”, sem revelar o molho cremoso que vem por baico, dando sabor e intensidade ao prato.

Fígado gordo em forma de escabeche eu nunca tinha visto – Foto de Bruno Agostini

O escabeche de foie gras é uma maneira diferente de servir uma bela terrine de fígado gordo de pato, neste caso com acentuado sabor ácido, com pedaços de cebola e alho em forma de picles, servido com torradinhas que fazem a diferença.

Uma beleza a “viagem nórdica, no visual e no sabor – Foto de Bruno Agostini

“Viaje nórdico” é uma linda composição, branquinha, com um pó que nos remete à neve e ao frio, uma finíssima torrada de pão escuro com um delicado carpaccio bovino, com cebola, dill e uma espécie de creme azedo. E a neve? Era um sensacional pó de vinagre, realmente impressionante. Neste momento a garçonete já estava servindo o delicioso Carmins del Priorat, belo tinto de Alvaro Palácios.

A ostra – Foto de Bruno Agostini

Logo veio a ostra servido coberta molho de “mojito”…

A cavala – Foto de Bruno Agostini

… que foi seguida pela cavala marinada com molho de rebozuelo, um tipo de cogumelo. Simples, e digno de aplausos.

– Quero ver você adivinhar que macarrão é esse – desafiou-me a moça.

O falso macarrão de cogumelos – Foto de Bruno Agostini

Confesso que, para a decepção dela, acertei logo na primeira garfada. Apesar a aparência macarrônica, o sabor marcante do cogumelo revelou do que se tratava. Eram tiras delicadas de um fungo, imersas em caldo rico, saboroso. Tendo a acreditar que o “Mollete de papada”, uma espécie de mini hambúrguer de bochecha de porco, foi o melhor de toda a noite (e justamente o único que não fotografei, de tão apetitoso que estava). Uma loucura, uma delicadeza. Imagine… Até o pão deixou saudades. A esta altura a conta já estava chegando perto de 80 euros. A fome já não havia.

– Você não pode deixar de provar a “costilla de cerdo”.

Costelinhas de cordeiro desossadas com salmorejo – Foto de Bruno Agostini

Confiava na moça, e acatei a sua sugestão. Eram nacos de costelinha impecavelmente assada, com um molho de salmorejo, que é um molho típico da Andaluzia, com tomate, alho, pão, azeite e vinagre. Ela tinha razão… Albert Adriá, eu sei, fez carreira como chef pâtissier. Mas pulei a sobremesa…

No total, foram 92,87 euros. Valeu. Na Bodega, gastei outros 30 euros. Fui embora feliz, e pensando sobre a noite. Curioso  é que, ao revistar o passado, a Bodega 1900 parece mais atual que o Tickets, que aposta, com êxito, em uma cozinha criativa, com bons ingredientes e técnica apurada – um restaurante essencial para quem visita Barcelona. Porém, com um gostinho de ontem.

SERVIÇO
Bodega 1900: Carrer de Tamarit, 91, 08015 Barcelona, Espanha. Tel. +34 (933) 25- 2659. www.bodega1900.com
Tickets Bar: Av. del Paraŀlel, 164, 08015 Barcelona, Espanha. Tel. +34 (606) 22-5545. www.ticketsbar.es

P.S. – Esta reportagem foi escrita para a revista Gula.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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