Bodega Garzón, nos arredores de Punta del Este, no Uruguai: “A Vinícola mais Linda do Mundo!” – Por Humberto Cárcamo*

 

Em 2016, junto com minha esposa, resolvi aproveitar o feriado de Tiradentes para voltar a Punta del Este, que não visitava há muitos anos, e de quebra, conhecer uma vinícola de vanguarda na região, a Bodega Garzón.

Meu interesse por esse projeto, já em operação, mas ainda em desenvolvimento, se deu através do gerente geral da vinícola, um amigo de vários anos, que conheci no Chile quando ainda era diretor comercial de um grande grupo local.

Christian Wylie é chileno, de família inglesa, e quando mais jovem já havia sido gerente comercial da vinícola Juanicó, uma das mais conhecidas do Uruguai, onde conheceu sua mulher, Virginia, e veio a ter 2 filhos. Tendo voltado ao Chile e feito uma carreira exitosa que o levou a diretor comercial do Carolina Wine Group, proprietária das vinícolas Santa Carolina, Antares, Ochagavia e Casablanca no Chile, e Finca El Origen na Argentina, Christian expandiu as operações do grupo nos EUA e criou uma empresa na China, com a intenção de crescer e focar sua operação nesse extraordinário mercado.

Ao final de 2015, depois de consolidar o crescimento de sua empresa, recebeu um convite irrecusável para voltar ao Uruguai, e se dedicar à entrada em operação de um projeto extraordinário e único no Uruguai e provavelmente no mundo.

A Bodega Garzón faz parte de um projeto agro-industrial de Alejandro Bulgheroni e sua esposa Betina iniciado em 1999, a Agroland, que já são proprietários de várias vinícolas não só na Argentina, como também na França, Italia, EUA e até Australia.

Tendo como consultores Alberto Antonini, enólogo responsável pelo mítico vinho Solaia, do grupo Antinori, e proprietário da vinícola Alto Las Hormigas em Mendoza, e Carlos Pulenta, ex-proprietário da Bodega Trapiche e da Bodega Vistalba, a qual foi comprada justamente por Bulgheroni, foi decidido desenvolver um projeto muito ambicioso na região de Garzón, próximo às vilas turísticas de José Ignacio e La Barra, e a somente 30km de Punta del Este, um dos principais pontos turísticos da America do Sul e o mais importante do Uruguai.

Bulgheroni já possuía nessa região uma propriedade de 4 mil hectares, produzindo diferentes tipos de frutas, gado e azeites de altíssima qualidade. A partir de um estudo feito por Albertini com geólogos, foi escolhida uma área reduzida, de solos pedregosos e com excelente drenagem, dividida em mais de 1mil diferentes pequenas parcelas, com análise de solo por satélite, irrigação com a melhor tecnologia e importação e plantio de várias variedades de vinhas de uvas brancas e tintas, proporcionando oportunidade de produção de excelentes vinhos varietais e vinhos de corte, desde linhas mais do dia a dia, até o que se prenuncia como o vinho mais icônico do Uruguai. Ou seja, em termos de terroir, o potencial de produzir grandes vinhos está mais do que presente.

Antes mesmo da chegada de Christian, a partir de 2012, os vinhedos foram desenhados, as vinhas plantadas, e a bodega projetada e construída pela própria construtora pertencente a Bulgheroni.

A infraestrutura disponível é indescritível, tudo foi pensado nos menores detalhes, desde o conceito eco sustentável (gasto de energia e de água 40% menor) até o layout da área de produção que permite o tour pelos visitantes sem interrupção do trabalho. O fluxo produtivo é por gravidade, minimizando a necessidade de uso de bombas, e a tecnologia está presente nas prensas usadas na recepção da uva, nos tanques de cimento para maturação e estabilização, nas cubas de aço inoxidável de diferentes tamanhos e de formato cônico, que possibilitam ao mosto se misturar melhor com as cascas das uvas tintas durante a maceração, e nas barricas francesas dos melhores toneleiros. Soma-se ainda a traçabilidade que permite saber de que lote geográfico provém o conteúdo de cada garrafa, o que permitirá no futuro identificar onde as vinhas de maior qualidade e consistência estão localizadas e produzir vinhos exclusivos dessas parcelas.

Quando saímos da bodega, há um centro de visitas com 2 alternativas, sendo a primeira a normal, e que já é um encanto, que possibilita conhecer a área social da vinícola, com espaços para exposição de obras de arte, e uma varanda com vista especial dos vinhedos e de toda a região até o mar, que se encontra a 18 km de distância. Na parte interna localiza-se um bar com um mixologista sugerindo vários drinks de uvas e um restaurante internacional criado por Francis Mallmann, o mais famoso chef argentino, e sob a batuta de alguns de seus melhores assistentes. A decoração inclui grandes toras de árvores da região, entremeadas com uma arquitetura vanguardista, onde o pé direito alto e a presença de muitas obras de arte e móveis confortáveis e elegantes configura um espaço muito amplo. O resultado é um ambiente sofisticado, mas ao mesmo tempo despojado, com extremo bom gosto, deixando o visitante à vontade.

Tivemos a oportunidade de provar vários pratos, harmonizando com vinhos brancos da casta Alvarinho e Viognier, e tintos desde o Pinot Noir, Merlot e Cabernet Sauvignon, até a variedade mais representativa do Uruguai, a ubíqua Tannat. Uma culinária de autor e com pratos muito saborosos, pensados para harmonizar.

É interessante notar que todos os vinhos se mostram extremamente elegantes e complexos, embora ainda de vinhedos jovens, e que mesmo os de Tannat, uma variedade rústica e que normalmente se mostra muito tânica, são muito agradáveis no palato.

Porém, a poucos passos, no lado oposto da construção principal do centro de visitas, e desconhecida do público, há uma estrutura paralela, o Garzon Wine Club, exclusivo para grandes clientes, que terão um amplo lounge, salas de degustação separadas, área privativa de guarda na adega de seus vinhos, em escaninhos gradeados e fechados com cadeados, bem como barricas com seus futuros vinhos e mais um grande número de benefícios.

O objetivo da vinícola é se associar com os maiores clubes de colecionadores de marcas do mundo, para ter um calendário de eventos anual na vinícola. Alguns desses clubes são o da Ferrari, Porsche, Rolls Royce, Antinori, Armani, Ferragamo, Bulgari, bem como de bancos de investimentos internacionais, associações esportivas, clubes de golfe, tênis e iatismo.

Para mim, acostumado a visitar muitas vinícolas por ano, e já tendo estado em algumas das mais bonitas vinícolas do mundo, este projeto se mostrou único no mundo e de altíssima qualidade, foi uma experiência inesquecível visitar a Garzon!

E os vinhos, parte mais importante do projeto, seguem ganhando premiações e se destacando, tendo o seu Tannat principal recebido medalha de ouro da Revista Decanter recentemente em sua edição “World Wine Awards”.

O grande desafio para Christian Wylie agora é juntar esses vinhos de alta qualidade e esse projeto de bodega e centro de visitas espetacular, e transformar num negócio lucrativo e de futuro. Conhecendo-o como o conheço, estou seguro de que cada vez mais teremos notícias da qualidade de seus vinhos e do prestígio que a Bodega Garzón seguirá adquirindo ao longo dos anos.

Recomendo fortemente a todos que se interessam por visitar vinícolas e provar seus vinhos a planejarem uma visita em breve à Garzon.­ A Vinícola mais Linda do Mundo!

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admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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