Cefiro, Nimbus, Neblus e Pinot de Cerro: os vinhos da chilena Viña Casablanca

Na sala envidraçada começamos a prova, uma exemplar panorâmica sobre o vinhos da casa.

O Vale de Casablanca, como já dissemos antes, tem características geográficas bem particulares, devido à sua topografia montanhosa e a proximidade com as águas geladas do Pacífico, combinado com um clima seco e ensolarado na época de maturação das uvas, a partir do final da manhã. Ali nascem alguns dos melhores e mais aromáticos vinhos brancos do Chile, com destaque natural para a Sauvignon Blanc, mais elegante do que de outras partes, sem o incomodativo e forte aromas de ervas e arruda, mas também tem ótimos vinhedos plantados com variedades de sotaque alemão, como a Riesling. Entre as uvas tintas encontramos as mais tradicionais no Chile, com predomínio da Pinot Noir, que ali se mostra mais fresca e equilibrada, sem apresentar vestígios de outro aroma chato do Chile, aquela goiabada que caracteriza a maioria dos vinhos feitos com esta uva no país. Mas há também encostas cobertas com Cabernet Sauvignon, Carménère e a Shiraz, esta última a minha tinta preferido naquelas terras, junto da Pinot Noir.

Os seis rótulos degustados, e a neblina característica do Vale de Casablanca – Foto de Bruno Agostini

Quando iniciamos a degustação de alguns rótulos da Viña Casablanca (importados pela Casa Flora), por volta de 9h, a névoa ainda cobria os vinhedos.

Nimbus e Cefiro, dois dos rótulos da Viña Casablanca – Foto de Bruno Agostini

Fomos naquela sequência lógica, começando com o Nimbus Single Vineyard Sauvignon Blanc, bem enquadrado no perfil da variedade, fresco, aromático e com acidez lá em cima, bem cítrico e suculento, com bom corpo resultado da battonage.  Aquela garrafa perfeita para frutos do mar, desde ostras e peixes crus, com pouca interferência no seu sabor original, até em preparos bem condimentados, típicos de países asiáticos como a Tailândia e o Vietnã (na faixa de R$ 170).

Já o Cefiro Reserva Chardonnay (é a uva mais plantada em Casablanca), apesar do nome que sugere isso, não passa por madeira, e assim consegue se manter mais fresco e cheio de fruta. Pode ser encontrado hoje na faixa dos R$ 55, R$ 60, ótimo preço no cenário atual.

O Nimbus Pinot Noir custa cerca de R$ 150 – Foto de Bruno Agostini

Chegamos aos tintos, primeiro com o Pinot Noir, o Nimbus Single Vineyard tem aquilo que gostamos nesta uva, o frescor e a falsa leveza, resultado de boa acidez com taninos firmes, mas sedosos e delicados. Quando jovem mostra muita fruta e certo jeito selvagem. Fica mais elegante a partir dos cinco anos, e assim ganha notas terrosas, algo de trufas negras, e muita cereja (custa cerca de R$ 150). Valeria, ainda, provar o Pinot de Cerro, com uvas plantadas em encostas, o que geralmente não acontece com esta variedade em Casablanca, já que as partes mais altas são reservadas a Shiraz, Carménère, Cabernet e Merlot, uvas mais cascudas, e que aguentam melhor o sol. Valeria, porque custa pra lá de R$ 500… Mas no momento acho que nem se encontra pra comprar…

O Cabernet Sauvignon Reserva Cefiro e o Nimbus Single Vineyard, se por um lado são vinhos bem feitos, com acabamento correto, não chegam a me empolgar.

O elegante Neblus, um Shiraz com pequena parte de Merlot (só 10%) – Foto de Bruno Agostini

Ao contrário do Neblus 2011, um Shiraz com 10% de Merlot, que mostra um perfil mais fino, mineral e condimentado, do tipo que nos remete aos ótimos exemplares do Alto Rhône, o melhor tipo de vinho para um churrasco, aquele estilo que vai bem com tudo o que é feito na brasa, e que se encaixa bem desde carnes mais delicadas, e até aves, como coelho, codorna e um belo frango assado, até pato, cordeiro, cabrito e porco, além dos cortes bovinos os mais variados. É um coringa para a carnes, churrascadas e afins. Esse dá pra comprar por cerca de R$ 350.

Uma parcela de Shiraz já recebe os primeiros raios de sol, enquanto a parte baixa do vinhedo continua protegido pela névoa matinal – Foto de Bruno Agostini

Por volta de 10h30, 11h, subimos a encosta. Chegamos lá em cima e as vinhas mais altas já recebiam timidamente os raios de sol, que ainda não tinham nem mesmo secado as uvas e as folhas do orvalho.

Shiraz “de cerro” – Foto de Bruno Agostini

Lá em cima, as uvas mais “fortes”, como Shiraz. Lá embaixo, as mais delicadas, como as brancas, e a Pinot Noir. Ainda estava fresco por ali (era final de abril). Lá embaixo, a névoa ainda estava densa, protegendo totalmente as uvas do sol.

Repare como ficou o vinhedo pouco tempo depois – Foto de Bruno Agostini

Como se os anfitriões tivessem cronometrado o tempo, os dez minutos que ficamos lá em cima foram suficientes para o calor dissipar as nuvens. E assim, só perto do meio-dia as uvas de Casablanca começam a receber os seus primeiros raios de sol, protegido pela neblina (daí os nomes dos vinhos desta bodega, que pertence ao grupo Santa Carolina).

E pouco tempo depois… O sol finalmente aquece todo o vinhedo – Foto de Bruno Agostini

E quando isso acontece, a brisa fria do Pacífico começa a soprar (resultado da corrente de Humbolt), refrescando a vinha. O solo é seco, bem drenado, com uma formação complexa,  e as raízes vão fundo buscar nutrientes, ganhando complexidade já na fruta. Essas combinações explicam porque o Vale de Casablanca tem um dos mais altos níveis de produção quando se fala em Chile. Quase tudo o que sai de lá pode ser classificada de bom pra cima.

E mais: Vale de Casablanca e Valparaíso: vinhos, enoturismo e almoço com vista nos arredores de Santiago

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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