Cozinha em revista: Dona Irene, um restaurante russo que tem uma História épica

Há quem não se preocupe com isso, uma vez que muitos dos restaurantes mais medíocres vivem cheios e alguns dos melhores vazios – e nós não estamos falando de preços, porque existem cozinhas muito ruins e caras e lugares excelentes com preço justo. Acontece que – por mais óbvio que pareça – é a comida a razão de ser de um restaurante, e quesito elementar para que a gente vá nele, e indique aos amigos.

Há outros fatores importantes: quem não gosta de visitar o mesmo restaurante ao logo de toda a vida? Desde a infância até agora. Sentindo os mesmos sabores, resgatando as mesmas memórias, fazendo viagens no tempo e no espaço – no caso em questão, o restaurante russo Dona Irene, em Teresópolis, que mudou de endereço desde as minhas primeiras visitas, e eu tinha lá uns quatro anos de idade, até a última, dois meses atrás, aos 42. Uma jornada de  quase 40 anos.

Ter bebidas especiais é outro ponto relevante, fato. Oferta de vinhos, destilados, coquetéis, cervejas, águas, chás, cafés e outros itens exclusivos ou listados em seleção realmente especial, também conta muitos pontos a favor. E só o fato de o restaurante Dona Irene não cobrar rolhas e produzir a sua própria vodca, a melhor companhia para a refeição, já torna a experiência ainda mais nobre e sedutora – porque o destilado perfumado algumas vezes com frutas do quintal, como pitanga e limão, é provavelmente o melhor e mais artesanal entre os produzidos no Brasil, e podemos comprar garrafas para levar.

Então, para resumir, nesta casa russa encontramos excelente comida e bebida, e no meu caso, referências de toda a vida. E ainda podemos apreciar um lugar, qualquer lugar, pela sua História, e o restaurante Dona Irene, em Teresópolis, tem uma trajetória épica, que já ultrapassa os 100 anos, embora a inauguração só tenha acontecido em 1964, e logos explicamos as incríveis razões disso. Boa comida, boa bebida, aspectos afetivos e uma História sensacional. Pra mim, Dona Irene é isso.

Não é qualquer restaurante que merece uma biografia. Dona Irene merece.

Tentando resumir, pode-se dizer que foi em 1917 que tudo começou. Primeiro, em março, com a primeira fase da Revolução Russa, o casal Mikhail Flegontovich Smolianikoff, capitão do Exército Imperial Russo, e Eupraxia Wladimirovna Smolianikoff, foram mandados para a Sibéria, quando o czar Nicolau II foi obrigado a renunciar.

o casal russo Mikhail Flegontovich Smolianikoff e Eupraxia Wladimirovna Smolianikoff, – Reprodução de foto do restaurante

Com o desmantelamento do Exército Imperial Russo, muitos oficiais foram assassinados. Mikhail foi poupado. O casal atravessou o Deserto de Gobi a pé, cruzou toda a Mongólia até chegar à China, onde viveram por anos. Até que, em 1949, o que acontece? A Revolução Cultural Chinesa, liderada por Mao Tsé-tung. Pela segunda vez, Mikhail e Eupraxia tiveram que fugir de uma revolução socialista.

Passaram pelo Japão e EUA, até chegarem ao Brasil, onde ficaram conhecidos como Miguel e Irene. Subiram a serra, para viver em Teresópolis. Ele dava aulas de russo, ela fazia bolinhos salgados para vender, os pirozhkis, recheados de carne (são os bolinhos da foto de abertura deste post, servidos com sopa de beterraba, o borscht). Até que, em 1964, o que acontece? Golpe militar. Dar aulas de russo era uma atividade, no mínimo, subversiva, e eles precisavam ganhar a vida de outra forma. Até que, por sugestão dos amigos José Hisbello Campos e Maria Emília, começaram a receber pequenos grupos em casa, servindo refeições com cardápio russo. No início eram poucos itens, que foram aumentando com o tempo, até chegar ao modelo atual, um senhor banquete, digno da realeza.

Com a morte dos russos, Hisbello e Maria Emília assumiram o restaurante, e até incrementaram o menu. Eu, que frequento a casa desde sempre (tenho lembranças bem claras de visitas quando tinha quatro ou cinco anos, ao restaurante Da Russa, como lá em casa nos referíamos ao restaurante), posso dizer que os sabores são os mesmos dos anos 1980, e é mesmo impressionante um lugar conseguir esse nível de regularidade – sempre saio de lá feliz e satisfeito, e claro que a vodca ajuda nisso.

E assim, desde 1964, o restaurante Dona Irene apresenta aos brasileiros um banquete russo, daqueles nababescos, que eram emblema da aristocracia czarista. A vodca que acompanha a refeição – chamada Nazdaróvia – é produzida na casa, artesanalmente, seguindo a receita familiar de Eupraxia.

O varênique, uma espécie de ravióli de batata, é servido com molho cremoso e escalopinhos com cebola frita – Foto de Bruno Agostini

 

Dividido em cinco etapas, o menu começa com as entradas frias, cerca de 15 – os zakuskis. Depois, a origem de tudo: os pirozhkis, servidos com a sopa de beterraba, o borscht. Em seguida, uma seleção de entradinhas quentes, que precede o serviço do prato principal – este deve ser escolhido pelos clientes numa lista de sete opções (meu preferido é esse aí de cima, o varênique, ainda que os mais pedidos sejam o estrogonofe e o frango à Kiev, e eu diria que eu aprovo todos). Por fim, a sobremesa.

————————————–O BANQUETE———————————————————-

Deixo aqui um link para um post que fiz, detalhando a refeição (é de 2011, mas nada mudou, e continua tudo daquele jeito). Antes de quinta, quando começa a Copa da Rússia, farei um novo, com novas fotos, informações e curiosidades. Portanto, vou visitar a casa nos próximos dias. Hoje foi só para contar a História, com agá maiúsculo, desta casa tão deliciosa, tão especial. Aí, atualizo este post com o link. Só sei que deu vontade imensa de ir almoçar lá nos próximos dias. Farei isso. Como de hábito.
Custa R$ 150 poe pessoa.

Dona Irene: Rua Tenente Luiz Meirelles 1800, Bom Retiro, Teresópolis. Tel. (21) 2742-2901 e  2643-3813. www.donairene.com.br

 

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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