Em Roma, entre trattorias, enotecas e cantinas

A palavra trattoria é derivada dos veículos rurais, ainda do tempo em que eram tracionados por animais. Apesar de sua origem campestre, recebendo agricultores com seus tratores, é há muito tempo empregada em restaurantes urbanos.

O impecável bucatini all’amatriciana da a Trattoria da Cesare – Foto de Bruno Agostini

Na capital italiana encontramos centenas delas. Uma das mais badaladas do momento, a Trattoria da Cesare, no distrito de Portuense, é um relicário das receitas romanas mais típicas, lugar certeiro para se entregar ao sabor de pratos como  flor de abobrinha frita recheada com mozzarella e alici; polpette de bollito com pesto de manjericão; croquete de berinjela all’arrabbiata; nhoque al sugo della coda alla vacinara; bucatini all’amatriciana e trippa alla romana. Quem serve os clientes no salão e sugere os vinhos é Leonardo Vignoli, o dono do restaurante, que serve os clientes no salão, com carinho típico desses lugares.

A pajata da trattoria Armando Al Pantheon – Foto de Bruno Agostini

Roma tem fama de abrir muitos restaurantes ordinários em suas áreas mais turísticas, fisgando os visitantes que passam por lá. Um dos poucos que contam com o respaldo dos moradores é a tradicional trattoria Armando al Pantheon, que está a poucos passos do famoso monumento ancestral de homenagem aos mortos. Inaugurada em 1961 segue a mais fina linhagem do receituário local, com bancada de antipasti onde pescamos conservas de alcachofra, abobrinhas grelhadas e outras iguarias do gênero, observando de lá o movimento da cozinha. Paredes de madeira, muitos quadros trazendo a memória antiga da casa e mesas próximas dão forma a um salão acolhedor, onde somos atendidos pelos próprios donos, que tratam de sugerir o melhor do lugar: spaghetti alla griscia, com guanciale, pecorino romano e pimenta; saltimbocca alla romana e faisão com porcini e cerveja negra, além da melhor versão possível da pajata, que são os intestinos do vitelo de leite, servido com torradinhas.  O Armando al Pantheon merece o nome monumental que tem.

Um ícone da cidade eterna, a Roscioli é uma pizzaria encharcada da tradição, que serve a massa, e muitas outras formas de panificação, seguindo a regra romana, “al taglio”, cotada em pedaços, vendida a peso. Bem perto dali, nas cercanias do Campo dei Fiori, funciona um dos mais incríveis endereços gastronômicos da Itália, misto de delicatessen e restaurante. Além de encontrarmos vinhos raros e antigos, e até uma arrebatadora seleção de uísques, mostrando que a casa tem produtos de todo o mundo, a loja tem os melhores queijos, embutidos, carnes curadas e conservas da Europa, expostos em um balcão refrigerado tentador, onde reluzem pernas de porco nas mais diversas curas, pecorinos, salames, provolones, copas, trufas… O piso tem pedras portuguesas, há paredes de tijolinho claro e garrafas especiais, já vaziam, montam um belo cemitério de grandes vinhos. O cardápio abrange as especialidades locais, mas também traz à mesa referências de outras partes do país. Assim, convivem em sintonia pratos como espaguete alla carbonara, tartare de gado piemontês fasona, tomates da Puglia e mozzarella de Napoli. Uma festa, que fica ainda melhor se servida no balcão, em contato direto com os bastidores, com o assunto puxado com naturalidade pelos atendentes, pelas sugestões certeiras que sempre nos fazem.

A minestra de broccoli e arzilla do ristorante Paris – Foto de Bruno Agostini

Na gastronômica área de Trastevere, repleta de restaurantes, muitos deles típicos pega-turista, o Ristorante Paris di Dario Cappellanti, apesar do nome pomposo, é mesmo uma boa e velha cantina de bairro, frequentada por famílias romanas que se esbaldam em mesas acolhedoras, onde são servidas receitas típicas, de uma simples “minestra de broccoli e arzilla”, uma rica sopa de arraia com brócolis, sublime. Na simpática Piazza San Calisto a casa serve outros clássicos romanos, como a flor de abobrinha recheada e o espaguete caccio e pepe, com queijo e pimenta, seguindo os padrões desejáveis: massa al dente, um tantinho da água do cozimento e o molho saboroso, que se incorpora ao prato com textura deliciosa.

Miudinha e cheia de raridades em sua vasta lista de rótulos de vinho, a lojinha Il Gocceto é mais do que se pretende. Além de sua ótima carta de bebidas, tem alguns poucos acepipes, mas todos eles muito bem escolhidos. Alcachofinhas tenras, tomatinhos adocicados, azeitonas polpudas e bem temperadas, e tábuas de queijos e frios, tudo sempre servido com pães de gala, convidam a que se gaste o tempo ali, vasculhando as suas prateleiras, e mordiscando a petiscaria simples e deliciosa que bem representa a cultura gastronômica italiana.

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admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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