Enoteca Agostini: três vinhos brasileiros participam do Masterchef, e prová-los é a confirmação de que nossa vocação é fazer espumantes e devemos evitar a madeira

Não pude ver o episódio de ontem do Masterchef, quando os competidores foram desafiados a fazer pratos inspirados nas cozinhas de Itália e Alemanha, para serem harmonizados com três vinhos brasileiros, uma ação do Ibravin junto á produção do programa, episódio gravado nos dias 4, 5 e 6 de março, nos municípios de Bento Gonçalves, Farroupilha e Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha.

Os vinhos que participaram da prova – Foto de divulgação / Carlos Reinis

Não pude ver porque tinha um compromisso noturno, mas provei os vinhos nos dias anteriores. Eram eles: o espumante Brut 130, da Casa Valduga; tinto Reserva Merlot, da Vinícola Aurora; e o espumante moscatel rosé Aquarela, da Casa Perini.

Paola Carosella e Henrique Fogaça jun to ao Time Vermelho – Foto de divulgação / Carlos Reinis

A prova do kit que me foi enviado serviu só mesmo para reforçar teorias enológicas já comprovadas por crítica e público.

  1. Nossa grande vocação é mesmo a produção de espumantes, dos mais secos, tipo Nature, até aos mais doces. O Brut 130, velho conhecido, da Casa Valduga, é um dos grandes representantes do estilo, desde muito, e é um dos ícones desta vinícola, que se especializou na produção de espumantes através do método tradicional, com segunda fermentação em garrafa. E a Casa Perini, embora seja uma vinícola antiga, fundada nos anos 1970, ganhou fôlego recente, e vem afinando a sua produção, ganhando destaque por fazer vinhos com ótimo preço, como este surpreendente espumante rosado, o Aquarela,feito com Moscato Branco, Moscato Gallo e Moscato de Hamburgo, leve, delicado e refrescante, com boa acidez que lhe equilibra os açúcares, tornando-o um belo coringa à mesa, podendo ser servido com entradinhas (de patê de fígado com geleia de frutas vermelhas a brie com damasco), alguns pratos (imaginei com uma boa feijoada) e principalmente sobremesas à base de frutas. Uma deliciazinha.2) Quando falamos de brancos e tintos, a madeira é sempre um perigo, que não apenas aumenta muito o custo individual das garrafas, como também compromete a fruta, impondo um aspecto aromático forçado. Vamos apostar na vivacidade, no frescor, na acidez e na fruta. Claro que alguns vinhos podem, e devem estagiar em carvalho, seja novo, seja já usado, dependendo do caso, mas o que vejo hoje na maioria dos casos é um uso excessivo e desnecessário da madeira. Como acontece com este Reserva Merlot, da Aurora, vinícola que tem o meu apreço, não apenas por fazer alguns vinhos de que gosto muito (como o Cabernet Franc Pequenas Parcelas, um dos melhores do Brasil, e entre os grandes talvez o que apresente o melhor preço), mas também por ter linhas de entrada, baratas e com rótulos secos e suaves, que são para mim a porta de entrada de novos consumidores no mundo do vinho, algo que é da maior importância neste mercado ainda tão pequeno por aqui. Para exemplificar, gosto e bebo vários vinhos da Aurora, de linhas inferiores, sem madeira e com preços mais baixos (especialmente da linha Varietal). Entre esses, da Linha Varietal, destaco o Riesling Itálico, puro, fresco e suculento, e o que mais compro, o Pinot Noir, cheio de fruta, vivacidade, alegria e frescor, com 11 ou 12% de álcool, leve, desses que podemos colocar no balde de gelo, e que vai alegrar a nossa tarde, de um churrasco até em pratos mais fortes e invernais. Pago nele R$ 34 a garrafa, e no mesmo mercado o Merlot Reserva custa R$ 47. Mesmo que tivessem o mesmo preço, ou até que fosse o inverno, o Pinot mais caro que o Merlot, em continua com o Pinot Noir Varietal.

    3) Como se fosse um subitem no anterior, acrescento: os melhores vinhos do Brasil ainda saem da Serra Gaúcha, e são fruto de pequenas e cuidadosas produções, como as garrafas das vinícolas Era dos Ventos, o Vinhedo Serena, além das borbulhas da Cave Geisse, e de Adolfo Lona . O genial Marco Danielle, do Ateliê Tormentas, faz o seu Cabernet Franc, e um Pinot Noir, em Campos de Cima da Serra, e outro Pinot Noir na Campanha Gaúcha, e é exceção à regra. Porém, quando falamos de vinhos num patamar logo anterior, vejo a região da Campanha Gaúcha como a grande referência. Ali é possível se produzir em grandes quantidades, com bom preço e ótimo resultado, apostando em vinhos leves e frescos, com baixa graduação alcoólica e sem madeira. Estive lá há cerca de dois anos, e conheci vários projetos incríveis, como Bodega Sossego, Guatambu, Campos de Cima e Almadén. É sobre esta última que quero falar. Sua linha mais básica me custa R$ 22 a garrafa, e pode chegar a R$ 20, se comprar caixa com seis. Não há no mercado nada que custe menos de R$ 30 que me dê tanto prazer quanto esta linha de vinhos, com destaque especial para dois tintos (tannat e Merlot) e um branco (Riesling Itálico, mas tem um recomendável e raro de se encontrar Ugni Blanc). Sério… R$ 22, a garrafa. R$ 22 a garrafa.

 

Bem, era isso o que queria dizer, e ao escrever este texto vejo que estava sentindo falta de viajar por este assunto. Por isso, resolvi resgatar a coluna Enoteca, que será publicada aqui, ao menos uma vez por semana.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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