Enoteca Agostini: um passeio pelo Priorato, na Catalunha, onde são produzidos grandes vinhos em condições extremas

La Sagrada Família, em Barcelona: ponto de partida do roteiro – Foto de Bruno Agostini

Barcelona é um dos principais destinos turísticos do mundo, com apelo ainda mais forte junto aos amantes da gastronomia, e consequentemente dos vinhos também. E a região do Priorato é berço de muitos dos mais cultuados rótulos da Catalunha (e do mundo, por que não dizer?), sobretudo os tintos, densos, maduros, escuros, concentrados. Uma terra dura, áspera, seca, com elevações rochosas que formam lindas paisagens e impõem condições extremas aos vinhedos.  Mas, mesmo com tudo isso, esta área montanhosa, com maciços de pedra, vinhedos em encostas vertiginosas e um gracioso conjunto de construções históricas em pedra, ainda é muito pouco explorada pelas multidões que passeiam por esta região autônoma da Espanha, que no momento briga por sua independência do país. A cerca de uma hora e meia de carro a partir de Barcelona, o Priorato cabe em vários tipos de roteiros. É possível fazer um bate e volta, saindo pela manhã e voltando no final do dia para a capital. Mas, o ideal para se explorar com mais calma o lugar é reservando, ao menos, dois dias (considerando uma noite por lá). Isso para os amantes do vinho. Porque o turista que aprecia o contato com a natureza, os passeios encharcados de História e o montanhismo em suas diversas modalidades pode facilmente gastar uma semana por lá.

As suas condições climáticas e geológicas que hoje são seus principais atrativos turísticos e enológicos quase arruinaram a produção de vinho por lá. A filoxera teve ali efeito devastador, e ao longo do século passado os vinhos do Priorato quase sumiram do mapa (hoje são cerca de 100 vinícolas, mas esse número já chegou a apenas 20). Vinhedos em encostas muito íngremes foram abandonados, e outros resistiram ao descuido, e esses, hoje, são cobiçados pelas bodegas. E foram essas vinhas antigas que hoje podem passar dos 100 anos que fizeram a região ganhar notoriedade, a partir dos anos 1990, movimento que ganhou força na virada do século e que continua em viés de alta. Agora, além de mostrar ao mundo os seus vinhos, o Priorato quer apresentar as suas virtudes turísticas. Para os adoradores de Baco, passear por lá ajuda e muito a entender os seus vinhos.

Colheita na Bodega Torres, no Priorato – Foto de Bruno Agostini

Muitas vezes o programa ecológico passeia pela enologia local. As trilhas que serpenteiam as montanhas quase sempre cruzam os belos vinhedos do Priorato, descortinando panoramas perfeitos para fotos padrão cartão postal. O cenário se assemelha a outras das mais belas paisagens vinícolas do mundo do vinhos, as encostas íngremes da Mosela, na Alemanha, e o Douro, em Portugal. O terreno escuro é de origem vulcânica, formado por placas de ardósia.

Um desses caminhos leva até a construção religiosa que batiza um dos vinhos mais caros não só do Priorato, mas do mundo, o mítico  L’Ermita, de Alvaro Palacios, cuja bodega está perto dali. A caminhada curta e fácil até a Ermita de la Consolación de Gratallops começa no vilarejo de Vilella Alta, com as suas casas antigas de pedra com vista para as paredes rochosas de perfil dramático, pontiagudas. Ao lado do templo está o belo vinhedo descendo pelas encostas.

Cacho de Cariñena (ou seria Garnacha?) castigado pelo sol inclemente do Priorato – Foto de Bruno Agostini

O terreno se reflete nos vinhos. Porque os vinhedos enfrentam extremos, e a dificuldade é um fator importante para se produzir um grande vinho.  Ali a vinha encontra condições de cultivo muito próprias, o solo de pedra escura – que drena o terreno e obriga as raízes das plantas a irem buscar água muitos metros abaixo da superfície -, as encostas muito verticais plantadas com vinhas guerreiras, que recebem o calor solar que  tosta esta terra nos meses mais quentes do ano, e as fileiras grossas e retorcidas dos vinhedos antigos de Carineña e Garnacha, as duas variedades tintas mais tradicionais, junto com a Syrah, que se dá bem em clima quentes e ensolarados como o do Priorato.

Falset é um bom lugar para servir de base para o turista. O hotel Hostal Sport de Falset tem bos instalações. Mas mesmo quem não pretende dormir ali deve visitar o lugar para ao menos fazer uma refeição no restaurante que funciona no térreo, um dos melhores do pedaço, servindo a cozinha campestre da Catalunha, onde ingredientes do mar e da montanha se encontram. No cardápio, pedidas infalíveis que soam exóticas, como o carpaccio de pé de porco, ou outra variação do prato, esta um pouco mais usual, em forma de um imperdível carpaccio de camarões, frescos, de carne vermelha, com tempero na medida exata. Consulte os donos sobre as especialidades do dia, e deixe a comida e os vinhos por conta deles. Sabem cozinhar, escolher o vinho e servir.

Na mesma cidade, a uma curtíssima caminhada a partir do hotel, já nas franjas do “casco histórico”, o restaurante El Cairat de Falset propõe uma nova interpretação do passado judaico. Hoje a cozinha da casa serve um menu de pratos judaicos, com receitas com um delicioso bacalhau em molho picante de especiarias, além de pratos típicos da região.

De uma maneira geral, as vinícolas são pequenas, e com administração familiar. Uma dessas que não podem deixar de serem visitadas está a  Celler Burgos-Porta Mas Sinén, na localidade de Poboleda, não apenas por produzir belos vinhos, e por ser uma propriedade simpática, cercada por vinhedos de alta categoria. Mas, principalmente, por conta de seu proprietário e enólogo, o impagável Salvador Burgos, que recebe com gentileza e entusiasmo os turistas, contando histórias do Priorato, e mostrando as suas particularidade de geologia e de clima, fatores determinantes no estilo (e na alta qualidade) dos vinhos locais. Da sua pequena bodega não saem mais de 50 mil garrafas anuais, feitas com esmero e dedicação por um vitivinicultor apaixonado pelo que faz e por sua região. Visita imperdível mesmo.

Por outro lado, seguindo outra linha, outra visita indispensável é na sede da Bodega Torres no Priorato, conhecida como El LLoar, com arquitetura moderna e boa estrutura de visitação, com programas sob medida, que podem incluir diversões como misturar vinhos base para preparar a sua versão dos rótulos locais da Torres. Ali são produzidos dois dos muitos vinhos desta bodega gigante, o Salmos e o Perpetual. O primeiro, feito com uvas dos próprios vinhedos da empresa, tem tiragem de aproximadamente 120 mil garrafas, enquanto o segundo, produzido com uvas de vinhas velhas (com entre 80 e 100 anos) compradas de pequenos produtores locais, se limita a 10 mil exemplares. Para os padrões do Priorato, 130 mil garrafas por ano é uma enormidade…

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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