Katz’s Deli: desde 1888, o pastrami mais emblemático de Nova York

A fachada da deli histórica – Foto de Bruno Agostini

Pegamos um Uber em Midtown, e para fugir do trânsito fomos pela estrada beira-rio, a FDR Drive, até as bordas de Little Italy, já em Downtown. Descemos na  East Houston Street, e atravessamos a rua, para entrar no número 205. São 11h45, e o salão da Katz’s Deli começa a encher. O salão tem as paredes forradas por fotos com centenas de clientes famosos, propagandas de cervejas e condecorações, e  no local há mais locais que turistas, mas esses também são muitos. Um balcão imenso tem uma fila de clientes, com mais pressa. Pedem, pagam, sentam, comem e vão embora. Nos sentamos numa mesa bem ao fundo, com ótima visão para o restaurante, de onde observamos tudo, aquele cenário de filme, de vários filmes e séries.

O balcão da histórica deli típica da comunidade judaica de Nova York – Foto de Bruno Agostini

A garçonete equatoriana é pura simpatia. Maria queria panquecas, mas perdemos por pouco. Elas, e outros itens de breakfast, só são servidos até 11h30. Ela sugere, então, bagel de canela com cream cheese, enquanto coloca na mesa o prato com pepinos, frescos e em conserva em forma de picles. Aceitamos sua sugestão. Peço, é claro, o sanduíche de pastrami, e escolho a cerveja escura da casa, para acompanhar.

Maria, com a sua deliciosa bagel, de canela com crem cheese – Foto de Bruno Agostini

Ela vai e volta rapidamente com os pedidos. A bagel da Maria estava mesmo deliciosa, sem ser massuda, tinha leveza e aeração, e uma casquinha bem da crocante. E muito cream cheese por dentro.

Mas a estrela do programa era mesmo o pastrami, que foi um dos objetos de observação nesta viagem, e em breve faremos um comparativo entre três referências no assunto, a própria Katz’s, o Mile End e o Harry & Ida’s.

Resultado de um processo complexo, que inclui cura no sal e especiarias, cozimento e defumação, o pastrami é um ícone da gastronomia de Nova York, disseminado na cidade nas delis da comunidade judaica, caso do Katz’s, inaugurada em 1888 – ano da abolição da escravatura no Brasil, que ainda era um império (a república só seria proclamada no ano seguinte).

O sanduíche vai bem com a cerveja escura da casa – Foto de Bruno Agostini

O pastrami é um patrimônio de Nova York, e a Katz’s o seu principal endereço. Faz todo o sentido. A carne é mesmo um espetáculo. O pão nem é lá essas coisas. E o volume de pastrami colocado entre as duas fatias inviabiliza as tentativas de se comer com as mãos. Aquilo não é bem um sanduíche, é uma porção de carne. E que carne.

Um close no pastrami – Foto de Bruno Agostini

Muito saborosa, com uma quantidade de gordura que lhe garante a suculência. A boa mostarda da casa é providencial, pra realçar o sabor, e dar um toque de acidez. E comia usando garfo e faca, e vez ou outra pegava um pedaço com as mãos mesmo.

O salão fica lotado logo a partir do meio-dia – Foto de Bruno Agostini

Ao mesmo tempo, a gente observa aquele monte de gente, entre turistas e locais, o movimento intenso. A cerveja escura da casa é ótima, e não poderia haver melhor companhia para o pastrami. Era tanto, que demorei cerca de uma hora pra comer tudo. Até porque o papo estava bom.

Além do Katz’s Pastrami Hot Sandwich monumental, há outras pedidas altamente recomendáveis, como o Katz’s Corned Beef Hot Sandwich, descrito assim no menu (clique aqui para ver o cardápio): “Our secret ‘dry cure’ pickling formula requires a full month to be ready to serve.  The secret to finishing one is to pace yoursel… See More”. Outro ícone da cozinha judaica que ali tem ótima execução é a Matzo ball soup, e entre os itens a serem apreciados numa próxima visita eu também já incluí o omelete de língua curada. Há uma lista de cachorro quente com diferentes linguiças e salsichas, incluindo um típico chili dog nova-iorquino. Também deu vontade de provar os latkes com creme azedo (aquele bolinho de batata, cebola e ovo).

A New York Cheesecake com amora – Foto de Bruno Agostini

Pra encerrar, uma honesta New York Cheesecake (com cobertura de amora ou morango), além de cookies e bolo de cenoura com chocolate.

A Katz’s consegue, no alto dos seus 119 anos, combinar duas características raramente conciliáveis: é turística e deliciosa, conservando-se original, coberta de referências. Um desses lugares fundamentais para um forasteiro tatear a alma de Manhattan, e se entrosar com a cidade, e conseguir entendê-la através daquilo que melhor define um lugar: a sua comida.

SERVIÇO
Katz’s Deli: 205 East Houston Street (esquina com a Ludlow Street). Tel. +01 (212) 254-2246. www.katzsdelicatessen.com

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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