La Finanziera: delicioso prato típico do outono-inverno piemontês, que tem entre os seus ingredientes de destaque algo bem inusitado

Cheguei ao Piemonte bem orientado, quando lá estive. Levei um monte de dicas na bagagem, indicações do amigo italianófilo Alexandre Bronzatto, que sabe tudo sobre os comes e bebes no país.
Ele me deu um monte de dicas, de o que (e onde) comer por lá. Comer e beber, claro. Uma dessas preciosas indicações era mais ou menos assim:
“Você que gosta de miúdos tem que provar um prato típico, chamado ‘la finanziera’. É muito comum nesta época de outono-inverno que você vai estar por lá.”
Numa mensagem alentada ele indicava também alguns lugares para ir comer e beber. Um desses é a Osteria La Libera, na cidadela de Alba. E foi lá que fiz o meu primeiro almoço na área.
Ao abrir o menu, dei logo de cara com a finanziera. E, confiando no amigo como confio, pedi o prato, depois de uns petiscos típicos, que agora não me lembro quais foram, e isso pouco importa.
Fato é que eu adorei o prato (este que aparece na foto). Mas uma coisa deliciosa e irreconhecível me chamou a atenção. Tinha textura de cogumelos, bem saboroso, algo esponjoso, e que havia absorvido os sucos do tempero. Era macio. Visualmente não parecia um cogumelo, mas no sabor e textura, sim. Era algo com mais ou menos cinco ou seis centímetros, liso embaixo, e recortado em cima. Não perguntei do que se tratava, sei lá por que.
Encantado com o prato, no dia seguinte fui pesquisar a receita. E caiu a ficha. Aquilo que pareceia cogumelo era – na verdade – crista de galo. Mesmo para alguém sem frescuras para comer, foi uma grande surpresa. Em primeiro lugar, porque adorei. Em segundo lugar, porque nunca tinha provado aquilo. E, em terceiro lugar, pensei: porque isso não é servido? O que fazem com as cristas de galo? Jogam fora? Vira salsicha? Mas que desperdício…
La finanziera é dos pratos mais marcantes da vida, não apenas pelo ineditismo da crista de galo, mas por ser incrivelmente delicioso. Trata-se de uma receita típica do outono-inverno, que combina ingredientes como timo, cérebro e coração de vitelo, crista de galo e fígado de porco, entre outros miúdos, com ervilhas, cogumelos e cebolas, num molho delicioso feito com vinho, e servida – de preferência – em uma pequena caçarola de cobre.
Durante toda a viagem, provei mais algumas vezes o prato. O melhor de todos foi o que comi no excelente restaurante La Ciau del Tornavento, em Treiso (seguido pelo do La Libera).
Tempos depois, voltei a provar a rara iguaria. Foi no Fasano al Mare, através do chef Paolo Lavezzini, que me preparou um risoto memorável (para ler uma matéria do período, clique aqui).
Descobri, assim, que a crista de galo é uma iguaria finíssima, pouco conhecida e valorizada. Uma pena.

E mais: um apanhado com várias matérias sobre o Piemonte, esta terra abençoada, de trufas e grandes vinhos, uma das melhores regiões do mundo para se comer, e a preferida desta jornalista guloso. Clique aqui.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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