Marea, a impecável cozinha ítalo-marinha de Nova York (ou o dia em que almocei duas vezes no mesmo lugar)

O “fusilli with baby octopus and bone marrow” do Marea, ícone da casa, e receita inesquecível – Foto de Bruno Agostini

Almoçar em dois restaurantes, ou até em três, como já aconteceu, é algo relativamente comum em minha vida de jornalista viajante gastronômico, sempre na correria e na curiosidade de visitar muitos lugares em pouco tempo. Mas almoçar, duas vezes, e no mesmo lugar, no mesmo dia, era algo inédito, que jamais pensei que faria. Mas fiz. E foi em Nova York. No Marea.

Na minha última visita a Manhattan, no final de 2015, eu tinha muito pouco tempo livre. No roteiro oficial, haveria apenas um almoço livre. E já saí do Brasil decidido a ir no Marea, pelo seu perfil, uma casa italiana especializada em pescados, o que pra é a glória, porque junta a melhor cozinha do mundo, na minha opinião, com o melhor tipo de comida, peixes e frutos do mar.

Conhecia bem o restaurante, só de ouvido, de tanto ouvir recomendações de amigos, em especial do querido, antenado e grande gourmet Gabriel Cavalcanti.

Quando cheguei na cidade, hospedado no excepcional Mandarin Oriental, ali na Columbus Circle, fui pesquisar a localização do Marea, que até então ignorava. E qual não foi a minha alegria e surpresa ao descobrir que o desejado restaurante ítalo-marinho se localizava a apenas uma quadra de meu hotel.

Como muitas vezes acontece, os colegas de viagem perguntam onde vou comer, e pedem pra ir junto, porque sabem que a coisa mais importante pra mim, em qualquer roteiro, é a comida. Não foi diferente, e naquela tarde fria o meu companheiro de almoço foi o divertido amigo Jan Theofilo, ótimo parceiro de programas etílicos e gastronômicos, seja no rio ou São Paulo, seja em qualquer lugar.

E lá fomos nós. Quando visito um restaurante que tem menu degustação, essa é na maioria das vezes a minha escolha: uma sequência de pratos que geralmente apresenta o que a cozinha tem de melhor. Quando possível, também peço a harmonização sugerida pelo sommelier, prato a prato. E assim aconteceu no Marea, numa sequência de delicadezas marinhas que me deixaram em estado de graça.

Um Manhattan, em Manhattan – Foto de Bruno Agostini

O bom do Marea, entre outras coisas, é o bar não tem reserva, e sempre há lugares disponíveis, além do que os drinques são formidáveis. Pedimos algo bem local, um impecável Manhattan, que ali bebemos, enquanto esperávamos a nossa mesa.

Como de hábito, fomos no menu degustação,  com “wine pairing”.

O trio de pescados crus – Foto de Bruno Agostini

E foi mesmo divino, dos pratos aos vinhos escolhidos. Primeiro, um trio de peixes crus, cada qual com os seus devidos temperos e adornos, absolutamente matador (peço perdão por não lembrar detalhes de cada um, já tem mais de um ano). A foto não mostra, mas atrás do atum há mais um peixe.

Braanco grego, pra acompanhar os peixes crus – Foto de Bruno Agostini

Foi acompanhado com brilhantismo por esse espetacular vinho grego, de Santorini, da Gaia Estate, que dispensa apresentações.

Lagosta (ou seria king crab?), servido com vinho rosé – Foto de Bruno Agostini

Em seguida, essa lindeza aí, que tinha uma piscina de burrata (ou algo do gênero) com garras de lagosta (ou seria king crab? Fico com a primeira opção), tomate e… kiwi, acho… Talvez… Não lembro mesmo. Com esse rosado aí, ficou supimpa, e surpreendente. Isso eu lembro bem.

Abbatuccci, uma grata surpresa – Foto de Bruno Agostini

Prosseguimos com este tinto, produzido na Córsega, algo meio franco-italiano, fresco e delicado, que escoltou…

Que bisque é essa????????? – Foto de Bruno Agostini

… uma massa caseira lindamente adornada com um caldo daqueles ricos, que só italianos sabem fazer, uma espécie de bisque com mais delicadeza que o habitual, e uma carga extra de tomate, com peixe e aquela farofinha de pão, que os italianos usam em vez de queijo, em massas com pescados, dão crocância e sabor, sem mascarar o ingrediente principal.

Passopisciaro, um dos grandes tintos do mundo, nascido na Sicília – Foto de Bruno Agostini

O sommelier me encheu de alegria quando trouxe à mesa este que é um dos vinhos italianos de que mais gosto, o grandioso Passopisciaro, a expressão máxima da uva Nerello Mascalese, joia da Sicília, que cresce nas encostas escuras e vulcânicas. Olha só a cor. Pura delicadeza, algo bem perto de um Pinot Noir, dos melhores.

Pra comprovar a grandeza deste vinho, e que aquele papo de que vinho branco com pescados e tintos com carne é uma regra que deve ser ignorada solenemente.

Vieira como prato principal mostra que o Marea é mesmo um restaurante diferente – Foto de Bruno Agostini

Isso porque, olhe só qual foi o prato principal: vieiras, polvo, espinafre (acho) e outras coisinhas que não me lembro, mais uma vez confesso (é muita comida na cachola pra lembrar de tudo mais de um ano depois).

Torcolato 2010, coroando a lista de vinhos, e o almoço em grande estilo – Foto de Bruno Agostini

Com este dourado Maculan Torcolato 2010, suntuoso, fresco e com doçura bem equilibrada…

A sobremesa refrescante, e um vinhaço – Foto de Bruno Agostini

…o garçom chegou com a sobremesa, uma granitá.

Pedimos a conta, cerca de US$ 180 pra cada, isso eu lembro bem.

E fomos embora.

Ao chegar ao hotel, vi a mensagem do amigo Gabriel, que dizia algo assim.

“E aí. Muito foda o Marea, né¿ E aí, comeu o polvo com tutano¿”

“Não”, respondi tristemente lacônico.

“Ah, não, tem que ir, volta lá amanhã pra provar”.

Valendo-me da proximidade que estava do restaurante, decidi na hora, ainda de olho no relógio pra não perder o compromisso da noite (que na verdade, como sabe, nos EUA começa no fim da tarde, tipo 17h – uma vez só consegui reserva pra jantar no Per Se a essa hora, muito estranho pra mim, muitas vezes estou almoçando neste horário).

E lá fui eu, todo feliz e pimpão.

Ao chegar, o maître se surpreendeu.

“O senhor esqueceu algo? Algum problema”.

“Não, pelo contrário, gostei tanto que resolvi voltar. O amigo que me conhece bem disse que eu PRECISO provar a massa com baby polvo braseado e tutano.”

“Ah, que ótimo. Vou providenciar. Estamos vazios agora, pode escolher a sua mesa.”

Um close nos tentáculos dos polvinhos braseados – Foto de Bruno Agostini

E o que foi servido depois não só justificou o retorno que parece coisa de maluco. Mas coisa de maluco é esse prato. Imagine só. Uma massa caseira, no ponto mais-que-perfeito de cozimento, toda lambuzada, copiosamente, com um molho rico, de tomates com toques picantes, com a untuosidade e a potência de sabor do tutano, associado à textura macia do polvo, e seu gosto único, marcante, delicioso. Com aquele mesmo recurso de usar uma farofinha de pão por sobre a massa. Simplesmente um dos melhores pratos de toda a vida (no copo, o vinho “da casa”, o Altamarea, sugestão do sommelier, que acompanhou com brilhantismo este segundo tempo do almoço). E que pretendo repetir desta vez, porque quero que a Maria prove essa obra de arte comestível.

Esse Gabriel sabe das coisas.

Valeu, parceiro!

Pensei. Depois disso, mereço dar uma caminhadinha pelo Central Park, e foi o que fiz.

SERVIÇO
Marea – 240 Central Park South. Tel. +01 (212) 582-5100. www.marea-nyc.com

 

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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