Pelas mesas lisboetas, e arredores

Apetrechos para servir a taça do vinho Madeira – Foto de Bruno Agostini

 

Para encerrar um grande almoço no restaurante Gambrinus, um dos melhores de Lisboa, peço ao sommelier: “Quero um grande vinho madeira “. O rapaz, vestido elegantemente em um terno atijolado, logo me traz uma armação de ferro que guarda uma garrafa de rótulo desbotado pelo desgaste do tempo, onde percebemos a antiguidade e a procedência do precioso líquido: “Vinho da Madeira – Reserva Velhíssima de Adegas do Torreão”. Para deitar o caldo de coloração amarronzada com reflexos dourados no copo ele usa uma alavanca, e o néctar escorre de maneira delicada. Ao servir, informa: “Trata-se de um vinho muito especial, um blend de uvas brancas, de 1856. Espero que o senhor goste”.

Foi um momento mágico, e o ato de apreciá-lo, não como vinho de sobremesa, mas como sendo a própria, durou por mais de meia hora. A cada gole, uma explosão de sabores, uma elegância, profundidade e complexidade raras. O preço? Coisa de 20 euros a taça. Onde mais beber um vinho com mais de 150 anos de idade por este valor? Só mesmo em Portugal.

A vista do restaurante Fortaleza do Guincho – Foto de Bruno Agostini

A capital do país é um dos melhores lugares do planeta para se garimpar vinhos especiais e raros assim. Boa parte dessas preciosidades encontramos nas cartas dos melhores restaurantes, como O Galito e O Poleiro, ambos de cozinha tradicional lusitana, o moderno 100 Maneiras, no Bairro Alto, e o clássico Tavares, de inspiração francesa, que tem uma carta com 500 rótulos diferentes. De algum tempo para cá, o contemporâneo Bocca tem ganhado críticas elogiosas por sua carta bem montada, variada e com bons preços. Temos, ainda, os restaurantes dos arredores, como o lindo e sensacional Fortaleza do Guincho, que tem uma carta premiada, e o Porto de Santa Maria, que tem uma “adega” com 30 mil garrafas que tem até visitas guiadas, que devem ser agendadas pela internet – os dois em Cascais. Os grandes hotéis da cidade, como se pode imaginar, como o Lapa Palace, o Pestana Palace e o Bairro Alto, também guardam verdadeiras joias engarrafadas, e vale a pena explorar as caves de seus restaurantes premiados, com serviço impecável.

Não apenas nos melhores restaurantes, mas nas lojas especializadas é possível encontrar garrafas raras e antigas, a preços que só vemos em Portugal. Endereço histórico, fundado em 1927, a Garrafeira Nacional, no coração de Lisboa, na Rua de Santa Justa, tem uma importante coleção de vinho, com destaque para garrafas antigas de Porto e Madeiras, além de raridades de Alentejo e Douro e uma igualmente importante seleção de vinhos estrangeiros, com boa oferta de champanhes, por exemplo. Ali podemos encontrar garrafas como um Madeira Pather Borges de 1720 (a 6.950 euros) e um Vintage Nieeport de 1945 (a 2.750 euros). Sem ter vinhos tão velhos assim, as lojas de perfil mais moderno também são ótimos lugares para se comprar algumas garrafas, como a  Garrafeira Alfaia, no boemia do Bairro Alto, ótimo lugar para se gastar o tempo, entre goles e bons petiscos, selecionando vinhos especiais para comprar: existe ali uma ótima lista de pequenos produtores, com produção mínima e de alta qualidade. Isso sem falar nos supermercados, sem um bom lugar para se comprar vinhos a bons preços em países produtores: tente a rede Jumbo, que tem boa seleção.

Vinícola tradicional de Colares – Foto de Bruno Agostini

Outra virtude lisboeta é estar muito próxima de diversas regiões vinícolas, que apresentam características bastante distintas entre si. Das históricas Colares e Carcavelos, praticamente dentro da capital, até a nova denominação “Vinhos de Lisboa”, para o que antes se chamava Ribatejo, e a grandeza dos vinhos de Setúbal, até a imensidão do Alentejo, bem perto dali, a cidade tem tudo o que um enófilo precisa. Ótimos lugares para beber vinho, ótimos lugares para comprar vinho e ótimas vinícolas para se visitar. O que mais podemos querer?

 

SERVIÇO
100 Maneiras: Rua do Teixeira, 35, Bairro Alto. Tel.: (351) 21-099-0475. www.restaurante100maneiras.com
Fortaleza do Guincho: Estrada do Guincho, Cascais. Tel.: (351) 21-487-0491. www.guinchotel.pt
O Galito: Rua da Fonte 18-D, Carnide, Lisboa. Tel.: (351) 21-711-1088.
Gambrinus: Rua das Portas de Santo Antão 23, Lisboa. Tel.: (351) 21-342-1466.   www.gambrinuslisboa.com
Garrafeira Alfaia: Rua do Diário de Notícias 125, Bairro Alto. Tel. (351) 213-43-3079. www.garrafeiraalfaia.com
Garrafeira Nacional: Rua de Santa Justa, 18. Tel.: (351) 21-887-9080.  www.garrafeiranacional.com
Tavares: Rua da Misericórdia 37, Lisboa. Tel. (351) 21-342-1112.
O Poleiro: Rua de Entrecampos 30-A, Entrecampos, Lisboa. Tel.: (351) 21-797-6265. www.opoleiro.com
Porto de Santa Maria: Estrada do Guincho, Cascais. Tel.: (351) 21-487-9450.   www.portosantamaria.com

P.S. – Esta reportagem foi escrita para a revista Baco.

 

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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