O poder terapêutico de um almoço no Mitsuba, com sashimi de cavaquinha e incrível variedade de pescados muito frescos

Marmita japonesa do almoço – Foto de Bruno Agostini

Eu acabara de chegar. Tinha apenas pedido uma água com gás e um copo de saquê. Ao meu lado, Homero Cassiano, dono do Mitsuba, essa incrível casa japonesa da Tijuca, almoçava a sua marmita, que trazia cinco compartimentos, com sashimis, lulinhas grelhadas, saladinhas e vegetais, umas milanesas, e temperos agridoces e outras coisinhas mais. O telefone toca, e ele pede licença. Vai até a porta, onde está uma camionete muito mal estacionada, eu conseguia ver a cena de minha mesa. Observando, vejo Homero fazer sinal com as mãos, me chamando para ir até lá fora. O motorista era um pescador, que vinha de Macaé, se a memória não me trai. Ele trazia o resultado do seu trabalho do dia: umas cinco cavaquinhas, ainda vivas, e mais uns seis ou sete peixes, de deferentes espécies. Pareciam ainda palpitar. Fez o seu preço, e Homero arrematou o lote todo. Uns dez minutos depois uma das cavaquinhas estava no meu prato, em forma de sashimi e caldo perfumado. Foi um delírio.

Porque eu estava um tanto estressado. Nesta minha última visita ao Mitsuba eu cheguei com a filha, para almoçar depois da visita frustrada ao AquaRio  (não tinha luz), no calor caótico de um dia ensolarado de dezembro. Tínhamos ingresso, chegamos no horário, e ficamos lá naquele inferno, de 9h à 1h, esperando que a luz voltasse. Ninguém sabia informar nada, um tumulto, um calor, uma falta de respeito. Sorte que existe a comida para nos salvar.

O táxi para na esquina movimentada da Tijuca, já que o Uber não sabia chegar no AquaRio, e dois motoristas se perderam por lá, tentando me buscar. O dia estava tenso.  Porém, como dizia, existe a comida… Ao cruzar a portinha deixo o bafo e o estresse pra trás, e a sensação de desconforto urbano dá lugar à tranquilidade que é natural dos ambientes japoneses. Sushis, sashimis, tempurás, yakisobas, katsu-dons, tatakis, gyosas e outras especialidades são mais que alimento, são calmantes.

Menu do dia, com 11 variedades de peixes, cinco ovas, especiais etc – Foto de Bruno Agostini (do Instagram: @brunoagostinifoto)

Nossa terapia teve início ao sabor da pesca do dia. Homero Cassiano é um dos mais dedicados donos de restaurantes que eu conheço. Não apenas cuida diretamente da compra diária dos pescados do Mitsuba, como viaja muitas vezes até Maricá e outros pontos pesqueiros, e tem uma valiosa rede de peixeiros e pescadores, que abastecem a sua cozinha com ingredientes muito frescos, e com uma variedade que não encontramos em outros restaurantes cariocas. Há de tudo um pouco. E quem trata essa matéria-prima especial com carinho, técnica e precisa é o chef sushiman Eduardo Nakahara, que não hesito em afirmar que é dos mais talentosos do Brasil (e não à toa ganhou um campeonato brasileiro da categoria no ano passado, que lhe rendeu uma viagem ao Japão, que está prestes a acontecer).

No quadro junto ao balcão do sushi bar estão listados os peixes do dia: quase sempre são mais de dez espécies, quando não 15, ou um pouco mais. Às vezes, um outro acabam cedo, justamente porque só há uma ou duas unidades disponível. Além dos peixes, temos as ovas (massago, tobiko, ikura…), e outros frutos do mar, como os camarões, lagostins, caranguejos, cavaquinhas… E mais ouriços, vôngoles, enguias… Que loucura. Que fartura.

Se não me falha a memória… pampo-amarelo, atum, barriga de salmão e vôngoles – Foto de Bruno Agostini

Pois começamos, como acontece em casas do ramo, com uma sequência de crus. De tirar nosso fôlego, mas isso eu digo só como força de expressão. Porque, na verdade, os pratos que chegaram à mesa só nos deram ânimo, alegria e contentamento. Vieram pedaços bem cortados de atum, de carne escura e sabor delicado, e barrigas de salmão, untuosas, trazendo um pouco da pele. E xerelete, robalo, olho-de-cão… E pampo-amarelo, e serra… muito frescos, cada qual cortado como deve ser, explorando as virtudes de cada variedade de peixe, e com temperos igualmente variáveis. Umas laminazinhas de limão sobre vôngoles, um tantinho de salsinha sobre o xerelete, e doses moderadas de wasabi em cada peça.

Close na barriga de salmão – Foto de Bruno Agostini (do Instagram @brunoagostinifoto)

Foram três ou quatro rodadas, que saciaram a fome, minha e da Maria. Mas o triunfo daquele tarde veio em seguida. Era a cavaquinha recém-chegada.  Fiquei da minha mesa espiando. Eduardo Nakahara com um golpe certeiro da faca separou a cabeça do resto do corpo. Começou a limpar o bicho. Mandou as carcaças para a cozinha, e começou a cortar a carne em pequenos pedaços.

– Já até servimos na casca, com as pernas se mexendo, como acontece no Japão. Mas hoje não fazemos mais. Tem cliente que gosta, mas outros reclamam – diz Homero.

Sashimi de cavaquinha Foto de Bruno Agostini

Da hora em que ela entrou no restaurante até o momento em que chegou à minha mesa não se passaram mais do que dez minutos. Maria provou, mas acho que não fez muito a cabeça dela. Acho que por ela ter visto o trajeto do bicho.

A cada bocada na cavaquinha, cujo frescor dispensa comentários, dava para sentir os tons salinos do mar, e aquele fundo adocicado que faz deste crustáceo uma das mais incríveis iguarias do mundo, e que servido cru fica ainda melhor. Sentia o sabor do mar como poucas vezes senti. Na hora lembrei de mergulhos em Búzios, e suas águas geladas e salinas. Lembrei da música “Echoes”, clássico psicodélico do Pink Floyd, uma canção submarina e gelada, que se passa debaixo d´água…  Fiz outras viagens ao mar.

Com as carcaças é feito o caldo, rico e perfumado – Foto de Bruno Agostini

Aquilo só poderia ficar melhor se houvesse um caldo quentinho pra gente beber depois do mergulho nessas águas frias e deliciosas. Pois havia. As carcaças enviadas para a cozinha se transformaram em algo mágico. Perfumado. Saboroso. Intenso. Uma cumbuca fumegante, com um caldo redentor, que encerrou o almoço com chave de ouro, como se fosse uma toalha felpuda, macia. Como se eu tivesse entrado em uma sessão de terapia, o almoço transformou o meu dia, que teve uma manhã caótica, numa imensa alegria.

Foi tamanho o poder de transformação, as boas energias concentradas, que logo em seguida uma querida amida me ligou:

– Bruno, tudo bem? Voltei da Itália, e estou com dois presentes para você: Filetti di acciughe in olio di oliva, da Sicília; e colatura di alici, da Costa Amalfitana. Quero te ver, e te entregar.

Então, fomos ao Delirium Café Tap House. E recebi a gentileza, que desfruto até hoje, enriquecendo alguns pratos de inspiração italiana, e mediterrânea. Assim como ainda desfruto até hoje daquela cavaquinha, quando eu me lembro dela.

Obrigado, Homero. Obrigado, Dulcineia. Vocês salvaram o meu dia.

SERVIÇO
Mitsuba: Rua São Francisco Xavier, 170, Tijuca. Tel. (21) 2264-0274.  www.restaurantemitsuba.com.br

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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