Portugal x Espanha; leitão à Bairrada contra o cochinillo asado: quem vence a batalha dos suínos? #agostininacopa

Craque de Portugal, Cristiano Ronaldo nasceu na Ilha da Madeira, onde são produzidos alguns dos mais espetaculares e longevos vinhos do mundo. Melhor jogador da Espanha, Iniesta tem uma vinícola, em Albacete, na D.O. Manchuela.

Mais que potências no futebol, onde a rivalidade é histórica e ficou ainda mais acirrada nos últimos anos, Portugal e Espanha são referências quando o assunto é a boa mesa.

Se Portugal tem Porto e Madeira, a Espanha tem o Jerez. Se Portugal apresenta o Douro e o Dão, a Espanha responde com Ribera del Duero e Rioja. Portugal tem porco preto, e a Espanha o pata negra. Os brutos e as cavas; o Minho e a Galícia, e o Alentejo e La Mancha, as aguardentes velhas e os brandies… As tascas, as tapas. Neste delicioso ritual de encontrar semelhanças e diferenças, há uma notável: quem ganha o duelo entre o leitão à Bairrada ou o conchinillo asado? Difícil… Precisa mesmo escolher?

O assunto é de suma importância para este repórter. Tanto que já fomos até Mealhada – a capital dos leitões, na Bairrada, para conferir. Inicialmente tínhamos nos programado para ir provar o prato No Pedro dos Leitões, o mais famoso entre os brasileiros. Mas, pela manhã, no Hotel Moliceiro, em Aveiro, não muito longe dali, conheci ao acaso um crítico gastronômico, no café da manhã tardio e regado a brutos – da Bairrada, claro.

– A Meta dos Leitão, logo ao lado, é melhor, podem ir que eu garanto – disse.

Não se deve confiar em jornalistas, mas aquele cara me pareceu entender do que falava, porque o assunto se estendeu por pratos e viagens, e por lugares onde eu já havia estado, e tive impressões semelhantes (tem gente que me indica um lugar, e não vou, porque sei que se ele gostou eu não vou gostar, e vice-versa: acontece muito, algumas dicas são grandes furadas).

O forno do restaurante A Meta dos Leitões, em Mealhada, Portugal – Foto de Bruno Agostini

Pois nos hospedamos em um hotel bem ao lado d’A Meta dos Leitões, chamado Três Pinheiros,  e fomos caminhando pela estrada que enfileira várias casas do gênero, com seus grandes salões e fornos monumentais, que assam os vinhos inteiros, e que chegam a receber mais de mil pessoas em um único dia de final de semana. Provando os bicinhos nós entendemos. A pele crocante no nossos melhor estilo pururuca, a carne tenra e delicada, envolvida em um característico e inesquecível molho de pimenta, que é resultado na marinada, que mistura temperos e gorduras. Uma loucura. Peça um espumante rosado, se for mais careta, ou, então, parte para o abraço, pedindo um espumante tinto, desses que existem em poucos lugares fora da Bairrada, como o Quinta das Bágeiras Tinto Bruto Natural – ou, ainda, caso seja mais radical, vá um pouco mais ao Norte, até o Minho, escolhendo um Vinho Verde Tinto, como o Tapada dos Monges Escolha.

O acompanhamento, como deveria ser neste caso, são fritas portuguesas e salada, e mais não precisamos, senão um pouco do molho,  picante, resultado do cozimento.

O forno do restaurante mais antigo do mundo, el Sobrino de Botín, em Madri – Foto de Bruno Agostini

De Portugal fomos até a Espanha, e uns três dias depois chegávamos a Madri. Por interesse no pequeno suíno e curiosidade histórica, além de boas recomendações, escolhemos o restaurante El Sobrino de Botín, considerado o mais famoso do mundo, cujo forno a lenha assa leitões desde 1725. O lugar é um monumento da gastronomia mundial, e segundo contam por lá, Goya ainda muito jovem teria sido o que se chama hoje de chapeiro na casa, antes de ganhar a fama como um dos grandes pintores da História.

O tempero leva banha de porco, sal e pimenta, vinho branco, água, louro, tomilho, alho, cebola, salsinha e… pepino descascado, a grande surpresa. O sabor é um pouco mais delicado do que seu antagonista lusitano.

O próprio restaurante, em seu site, apresenta a receita (em espanhol): para ler, clique aqui.

 

—————————————–O RESULTADO———————————————-

Ter que escolher entre um e outro não é tarefa fácil. Se o português é caracterizado pelo tempero marcante, que valoriza a carne macia e saborosa do leitão, a versão espanhola traz à mesa um resultado um pouco mais delicado.

Enquanto o português é assado inteiro, com espeto que atravessa todo o corpo do animal, na Espanha ele vai ao forno dentro de uma assadeira.

Sem querer fazer média com ninguém, eu diria que são equivalentes em termos de qualidade,. E um pouco diferentes em se tratando de estilo. Ambos deliciosos.

E pra mostrar que não estou mesmo fazendo média, desde já – por ter raízes familiares portuguesas – eu estou torcendo para Portugal. Mas, no duelo suíno, deu empate.

 

SERVIÇO
A Meta dos Leitões: Estrada Nacional 1, km 234, Mealhada, Bairrada. Tel. (231) 209-540. casadesarmento@gmail.com; http://casadesarmento.pt/meta-dos-leitoes/
El Sobrino del Botín: Calle Cuchilleros 17 (Perto da Plaza Mayor), 28005 Madri. Tel +34 (913) 664-217. www.botin.es 

 

VÍDEOS:
A Meta dos Leitões
El Sobrino de Botín

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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