Prato do dia: Cozido

 

“Todos os povos da Europa fazem cozidos. Os portugueses são famosos, mas ficam a dever aos brasileiros, por causa de certos ingredientes só nossos: o milho, o aipim, a batata-doce e as bananas, além da farinha de mandioca, sem a qual não se faz o pirão.” Assim começa o texto de apresentação do cozido no livro “A Cozinha da Alcobaça – receitas e histórias”, de Laura Góes, dona e cozinheira desta acolhedora pousada petropolitana, onde comemos o cozido mais delicioso e lindo que podemos ter direito. Porque este não se trata só de um prato, mas sim de um ritual.

“Na receita do cozido, é mais fácil dizer como proceder do que estipular quantidades com precisão, mesmo porque tanto legumes e verduras como carnes podem variar de acordo com o gosto de cada um”, continua a cozinheira e autora.

Prato servido na varanda da Alcobaça: língua, carne-seca, linguiça, repolho, pirão, farofa, pimenta, milho (repare o garfinho para facilitar a vida dos comensais etc – Foto de Bruno Agostini

“Quando se faz um cozido, sempre há sobras, porque cada pessoa se serve dos seus ingredientes preferidos, e é impossível prever o gosto de cada um. Minha mãe dizia que o único jeito de saber se todos ficaram satisfeitos é verificando o que sobrou: se não sobra nada é porque faltou. As sobras do cozido nunca são desperdiçadas, pois podem se transformar em sopas deliciosas”, escreveu ela, antes de ir explicando o processo todo, e entrar na receita propriamente.

Lamentavelmente incerto, o que talvez dê certo charme e exclusividade ao evento, este é para mim o melhor cozido não só do Rio, mas que já comi. Porque fazer um cozido é um processo e não uma receita, e apreciá-lo também. Quem quiser pode pedir através do site da pousada para ser avisado da data do próximo cozido. Eu, por exemplo, este nesta lista, e sempre recebo os avisos. O último foi no dia 26/5 (para ler mais sobre a pousada, clique aqui). Custa R$ 94,50 (mais 10% da taxa de serviço).

Fora este, encontramos cozidos regularmente no Rio em três distintos tipos de restaurantes: os portugueses, naturalmente; os tradicionais, desses com anos de estrada; e nos botecos e derivados, onde o prato compõe o prato do dia em pelo menos uma ocasião na semana, geralmente duas: quartas (ou sextas) e sábados (ou domingos). Novidade fresquinha, testada nas últimas semanas e que entra em cartaz na sexta da próxima semana, dia 15/6, é o cozido do Rubaiyat, que será servido sempre neste dia da semana. Mas se não foi lançado, como pode estar entre os dez melhores? Simples: a julgar por visitas anteriores, e a qualidade da cozinha, do serviço e do lugar, e também por comentários de amigos que já provaram, não há dúvidas que ele vai estar, sim, nesta seleta lista. Escrever listas como essa também é fazer apostas e revelar novidades.

O cozido do Adegão Português tem debaixo desse grão-de-bico, nacos de carnes suína como orelha, pé e rabo – Foto de Bruno Agostini

Com o fechamento do Antiquarius, que servia um dos dois melhores cozidos do Rio, na opinião deste repórter, cabe agora ao Adegão Português envergar a honraria entre as casas portuguesas, servido o pratos sempre aos domingos. Digo isto reafirmando o que Dona Laura escreveu lá em cima: “é impossível prever o gosto de cada um”. Pois, sim. No meu gosto particular, aprecio cozidos que se apropriam de carnes que adoro, como orelha, rabinho e pé, nossos queridos elementos suínos desvalorizados sabe-se lá por que, e embutidos ibéricos, chouriço mouro e paio português. No Adegão é assim. Custa R$ 69,90 (para um), R$ 117 (para dois) e R$ 177 (para três).

– Servimos aos domingo, mas acaba rápido – diz o sommelier Marcos Lima, que lista os ingredientes: – Tem peito bovino, frango, costelinha suína, lombo, linguiça, paio português, chouriço moro (português), orelha e pé de porco. Tudo cozido com grão de bico.
Acompanha banana-da-terra, couve, repolho, batata baroa, batata-doce, cenoura, abóbora, nabo e aipim, e o pirão feito com o caldo do cozido

E qual o vinho para escoltar o prato?

-Para beber, eu normalmente sugiro um tinto português do Dão ou Alentejo.  No caso do Dão o Flor de Penalva tinto é excelente! Dão é um vinho mais elegante. Taninos domados e aromas de boa intensidade – indica Marcos Lima.

Pois para os quem sentem saudades do cozido do Antiquarius, que fechou as portas definitivamente esta semana, o Da Silva, seu filhote mais ligeiro e informal, serve o prato aos domingos, seguindo a fórmula da família Perico, que equilibrou a tradição portuguesa com a carioca. A novidade foi a inauguração, mês passado, da filial em Ipanema. Custa R$ 94,90 (o quilo).

O cozido do Málaga – Foto de Bruno Agostini

Outro cozido que aprecio muito é o do Málaga, por algumas razões que destaco: adoro as travessas da Humaitá Louças, que chagam fumegando; uma delas tem um feijão branco cozido em caldo perfumado com carnes, onde navegam entre outras partes admiráveis da anatomia animal pedaços de rabo de boi, outro elemento a se contar pontos a favor.

Entre as casas tradicionais, os cozidos são pratos do dia no Alvaro’s, no Leblon, outro reduto confiável para provar o prato, assim como o Garden, em Ipanema, que prepara panelões fumegantes, para montar um vistoso, farto e variado bufê – nos dois casos, aos domingos.

Na Praça da Bandeira está outra referência da cozinha portuguesa onde são servidas robustas e deliciosas travessas de cozido, com apresentação marcada pelos vistosas folha de couve, que chamam a atenção, e o pote de feijões brancos deliciosamente macios.

Nos botecos o prato também tem seus dias certos no calendário, geralmente também quartas e domingos. Caso do Bar do Pavão, na Tijuca, reverenciado pela boemia local por sua feijoada, dos sábados, e o cozido dos domingos. Outro boteco que engrossa esse caldo é o Bar do Mineiro, em Santa Teresa – que, na votação do Prêmio Época de 2017, organizada por mim, ficou empatado na primeira posição com ninguém menos que o Antiquarius, que nos deixou na saudade, infelizmente.

SERVIÇO:
Pousada da Alcobaça: www.pousadadaalcobaca.com.br
Rubaiyat: www.gruporubaiyat.com
Adegão Português: www.adegaoportugues.com.br 
Da Silva: Rua Vinícius de Morais 174, Ipanema
Málaga: www.malaga.com.br
Alvaro’s: www.alvaros.com.br
Garden: Rua Visconde de Pirajá 631, loja-B, Ipanema.
Rampinha: Praça da Bandeira, 201, Tijuca.
Bar do Pavão: Página do Facebook
Bar do Mineiro: bardomineiro.net

 

 

 

 

 

 

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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