Redação: Minhas férias – Por Maria Luisa Agostini*

Maria: “Comprei comida de astronauta, pirulito com escorpião dentro e também uns grilos, sabor sour ‘n’ cream, que é o que eu mais gosto na Pringles” – Foto do papai

A gente decidiu meio assim, em cima da hora. Meu pai sempre me falava de Nova York, que era uma cidade muito maneira, que tinha um monte de coisa legal, para adultos e crianças. Ela falava dos esqueletos de dinossauros do Museu de História Natural, dos rinques de patinação no gelo, do Central Park, dos hambúrgueres e cachorros quentes, dos cookies. Então, de repente, a gente estava programando a nossa viagem.

Papai ficou feliz, porque conseguiu um preço barato. Pagou uns R$ 8 mil, com passagem, hotel e seguro, mas eu não acho isso barato, não, mesmo que em dez vezes. Mas ele me falou uma coisa engraçada: que uma semana no Le Canton, em janeiro, custaria uns R$ 7.200. Aí, sou mais ir pra Nova York mesmo.

Chegamos de manhã muito cedo. Aí eu falei, na saída do aeroporto: nem está tanto frio como você falou. Mas isso porque a gente estava na parte aquecida, quando chegamos na rua estava um frio danado, uns três graus. O que é até quente pro inverno. Uma pena, porque eu queria ver neve, mas meu pai viu na previsão do tempo que não teria neve nos sete dias em que a gente ia ficar lá. Eles acertaram tudo, as temperaturas, os dias de chuva. Meu pai ficou impressionado.  Fiquei chateada por causa da neve, mas tudo bem, agora a gente está combinado de ir pro Chile ou pra Argentina no inverno. Aí vai ter neve com certeza. kkkkk

A gente pegou um trem, e depois o metrô, pra chegar em Manhattan, que é a ilha de Nova York, meu pai me explicou. Demorou um tempão, e tinha muita gente engraçada  no nosso vagão. E quase ninguém falava inglês. Também tinha muito brasileiro lá. A gente sempre encontrava.

Foi muito maneiro quando a gente saiu do metrô. Até comentei com o meu pai, que parecia que a gente estava em um filme. Nova York parece um filme. Claro, como eu sou tonta… Um monte de filme foi gravado ali, meu pai falou. Parece um filme mesmo. Tem um monte de prédio parecido, com escadas do lado de fora, pras pessoas fugirem de incêndio, meu pai falou. Mas vira tipo uma varandinha.

Nossa viagem foi engraçada. Eu só queria comprar, e o meu pai só queria comer.

No primeiro dia a gente encontrou uma amiga dele, que mora na Filadélfia (essa foi fácil gravar, porque eu adoro hot Filadélfia). A gente foi tomar um café numa praça de alimentação chique perto do nosso hotel, o Park Lane, na rua do Central Park. O nome do lugar era Food Hall, e a gente foi lá praticamente todos os dias da viagem.

Depois fomos comer hambúrguer com milk shake, no Black Tap. Quer dizer, eu pedi milk shake, porque meu pai pediu cerveja mesmo. Os milk shakes eram muito malucos, cheios de coisas penduradas, com biscoitos, M&M, algodão doce, um monte de coisa, todos coloridos, grandões. Muito maneiro.

Aliás, falando em M&M tem uma loja muito, mas muito grande, só de M&M, pertinho da Times Square, que eu queria muito ver, por causa das luzes, dos painéis. Também pedi pra gente ir naquele Hard Rock Café, pra comprar uma camisa.

A gente andou pra caramba, e ficou procurando o Rockfeller Center, e não achou, acredita?

Aí, a gente foi numa padaria, e meu pai comprou uns biscoitos muito bons. Tinha até uma imitação do Oreo, muito melhor, e muito maior. Caramba, muito bons os biscoitos. Meu pai falou que eram de um chef famoso, muito bom. Deve ser mesmo. O nome do lugar era Bouchon Bakery.

No dia seguinte fomos andando pelo Central Park, e depois almoçamos num restaurante muito chique, no hotel Mandarin Oriental, com vista para o parque. Foi muito bom.

Depois a gente saiu. E de noite foi comer um hambúrguer em um bar. De noite é maneira de falar, porque eram umas cinco da tarde, e já estava escurecendo. Meu pai comeu um monte de hambúrguer na viagem, e eu sempre provava. Sanduíche de pastrami também. Foram pelo menos três, que eu me lembre. Teve um num bar grandão, antigo, e que estava lotado. Katz’s Deli, esse eu lembro por causa do chocolate. Era tão grande o sanduíche que não cabia na boca do meu pai. Ele ficou mais de uma hora pra comer. Também porque ele fala muito. kkkkk

A gente fez um monte de coisa maneira. Fomos num bar que funciona numa estação de metrô, pra comer ostras. Nunca vi isso, restaurante no metrô. Tinha um monte, até uma loja de cup cakes, que a gente via as pessoas fazendo os bolos, muito irado. Aí, tive que comer um, né? Comi primeiro a sobremesa, depois que a gente foi comer as ostras. É muito nojento, parece meleca, mas o gosto é bom.

A gente foi num bairro chamado Little Italy, porque tem um monte de italiano. E num outro que chamava Chinatown, porque tinha um monte de chinês, e um monte de gente de outros países de olhos puxados.

Meu pai também me levou para comer em uns restaurantes muito bons. Comemos um macarrão com polvo em um lugar chamado Marea que estava muito bom. Meu pai disse que este restaurante tem duas estrelas Michelin, e que o máximo são três estrelas. Tudo bem, mas sabe o que aconteceu? A gente foi num restaurante em um lugar chamado Eataly (entendeu o nome? Eu entendi, e expliquei pro meu pai. Eat, de comer, com Italy, de Itália. Era como se fosse um shopping, mas só de comida da Itália. Lá dentro tem um monte de coisa, queijo, peixe, massa, vinho. E um monte de restaurante. Fomos duas vezes lá. E sabe o que é engraçado? O restaurante não tem nenhuma estrela, mas eu comi uma massa, era um tipo de ravióli, pequenininho, com recheio de carne, que estava até melhor que a massa com polvo, do restaurante duas estrelas. Meu pai até concordou comigo. Quer dizer, ele disse que os dois pratos estavam no mesmo nível. E lembrou que custavam quase a mesma coisa, uns US$ 35.

O Museu de História natural era muito maneiro mesmo. Mas o mais legal eram as lojas. Tinham várias lojas dentro. Uma mais maneira que a outra. Comprei comida de astronauta, pirulito com escorpião dentro e também uns grilos, sabor sour ‘n’ cream, que é o que eu mais gosto na Pringles.

A gente andava muito, e Nova York é mesmo muito maneira. Parece filme mesmo. Tem um monte de gente engraçada. Acredita que um dia a gente viu um cara só de sunga, tocando violão, na Times Square? Tava o maior gelo, muito frio mesmo, não sei como ele aguentou.

A gente fez um monte de coisa maneira. Subiu no Rockfeller Center, e no Empire State. Eu queria ir até Nova Jersey, pra ir no shopping que tem lá, e também na loja do Buddy, a Carlo’s Bakery. Mas meu pai não queria. Como eu já disse, eu só queria saber de comprar, e ele só queria saber de comer. Mas ele disse que a Carlo’s Bakery era uma porcaria, mas que se eu quisesse ele me levava. Claro que eu queria. Comi um cup cake, que estava muito bom, e meu pai pediu um cannoli, que ele disse que estava uma porcaria. Duvido. Comprei também uma camisa.

No último dia a gente trocou de hotel. Fomos pro Four Seasons, em Downtown, muito chique. Convidaram meu pai pra ficar uma noite lá. Ele sempre se dá bem com essas coisas. Uma vez eu fui com ele pra Disney, com tudo pago, acredita?

Aí a gente foi num lugar chamado Memorial de 11 de Setembro. Tinha um buraco com água, era até bonito. Meu pai foi tirar uma foto minha, aí eu fiz uma palhaçada. Ele riu, mas logou mudou, e pediu para a gente respeitar aquele lugar. Aí ele começou a me explicar a parada do atentado, que morreu um monte de gente, que ele trabalhou no dia, no jornal… Aí ele começou a chorar. Depois ele me mostrou uns vídeos dos aviões batendo nos prédios. Que horror. Os pilotos se mataram? Cruzes.

A gente fez um monte de coisa legal, mas ficou faltando um montão de programas que a gente tinha combinado: comer cachorro quente na rua, almoçar num tal de Jean-Georges, ver um jogo de basquete, ir até Nova Jersey…

Foi muito maneiro. Depois a gente voltou pro Brasil, e meu pai me chamou pra ir de novo, no ano que vem. Ainda não sei, falta muito tempo ainda.

* Maria Luisa tem 11 anos, e quem escreveu este texto foi – é claro – o pai, com base nos relatos dela durante a viagem.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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