De Rocchetta a Alba: restaurantes infalíveis para comer trufas e a comida típica do Piemonte

Participar da caça às trufas é parte do itinerário turístico, a ponto de existirem placas anunciando o programa no centro de Alba e outras cidades da região, como a pequena Rocchetta Tanaro, onde embarcamos na aventura. Saímos bem cedo, horário tradicional para essas caçadas. Uma névoa não muito densa encobre os carvalhos, uma das árvores cujas raízes abrigam este fungo com estrutura de tubérculo que cresce espontaneamente naquelas florestas úmidas do outono piemontês. Caminhamos por mais de uma hora por campos enlameados, cutucando a terra escura em busca das trufas nos pontos em que o cão indicava. E nada. Não encontramos “tartufo bianco” daquela vez. O tartufaio, o caçador de trufas, treina cachorros e conhece os melhores lugares para achar a iguaria. Os melhores cães podem valer até 10 mil euros. Muitas vezes a caçada é frustrada. Para evitar passar vergonha, dizem que muitos dos que fazem disso um programa turístico escondem umas trufas antes de chegar com os grupos. Não duvide.

Um “grafite” no centro histórico de Alba – Foto de Bruno Agostini

Alba é o epicentro da vida local, um bom lugar para servir de base para os turistas. Algumas vezes ao dia o aroma de avelã com chocolate toma conta do ar: é mais uma leva de Nutella ou Ferrero Rocher sendo produzida na fábrica da empresa de doces que foi fundada ali, valendo-se da alta qualidade da avelã local – uma espécie de cereja no bolo do Piemonte gourmet.

Tajarin al tartufo bianco, na Trattoria della Posta – Foto de Bruno Agostini

A partir de outubro e até dezembro, e às vezes indo até o final de janeiro, a temporada de trufas reforça o Piemonte como destino gastronômico. Os restaurantes ficam lotados de turistas. Um dos preferidos pelos moradores, a Trattoria della Posta é ponto de encontro de produtores de vinhos, juntando a tradição da cozinha campestre com a nobreza da iguaria. Uma aprazível casa de campo nas colinas de Monforte d’Alba (uma das comunas de Barolo) tem uma das cozinhas mais cultuadas da região, um salão elegante e trufas sempre frescas a perfumar o ambiente. Elas são usadas em receitas simples, como o tartare de gado Fassona ou o talharim na manteiga.

Codorna assada da Trattoria della Posta – Foto de Bruno Agostini

Pratos típicos da região dão forma a um cardápio tradicional impecável, com gnocchi de batata com fonduta de queijo, bagna cauda, talharim ao ragu de carne, codorna assada, stinco de vitelo ao Barolo…

Ristorante Bovio: vista para as vinhas de La Morra, e excelente cozinha – Foto de Bruno Agostini

Tirando partido da vista esplendorosa para a paisagem montanhosa da Langhe, o Bovio, em La Morra, é outro dos restaurantes mais conhecidos e visitados pelos turistas.

Flor de abobrinha frita, recheada com mozzarella e alice, do Ristorante Bovio – Foto de Bruno Agostini

No cardápio, vitello tonnato “alla vecchia maniera”, battuta di fassone piemontese, o tartare de vitelo cortado na faca, tortino di funghi porcini con fonduta di Raschera, uma tortinha de cogumelos com queijo e o raviolini del plin servido com um denso molho resultante do cozimento da carne. Trufas vistosas guardadas em redoma de vidro circulam pelo salão, perfumando o ambiente elegante, raladas à exaustão.

O agnolotti di Lidia al sugo d’arrosto, do ristorante Da Guido: uma das melhores coisas que s epode comer nesta vida – Foto de Bruno Agostini

O delicado raviolini del plin é um ícone da cozinha piemontesa, servido em diferentes versões. A mais espetacular delas atende pelo nome oficial de “agnolotti di Lidia al sugo d’arrosto”, a receita de família do ristorante Da Guido, no belo hotel Relais San Maurizio, um dos melhores do pedaço, talvez o mais imperdível entre os restaurantes imperdíveis do Piemonte, um programa obrigatório, bem como a visita à cave que guarda verdadeiras raridades.

Em Albaretto della Torre, o Ristorante dei Cacciatori é a casa de um cozinheiro mítico do Piemonte, Cesare Giaccone. O cabrito da Alta Langhe assado está entre os pratos mais espetaculares e famosos do lugar, onde também encontramos risotos de execução impecável.

Boa parte dos melhores restaurantes está espalhadas pelas áreas rurais, na comunas vinícolas de Barolo e Barbaresco. Mas o centro de Alba também guarda grandes cozinhas, a começar pelo Ristorante Piazza Duomo, no coração da cidadela, na praça central que dá nome à casa. Dono de três estrelas Michelin, o restaurante dá contornos contemporâneos para a cozinha tradicional do Piemonte, com menus degustação longos, um deles chamado de “Tradição e inovação”, um desfile de pratos de apresentação impecável. Na temporada das trufas, um menu temático explora a iguaria em várias receitas.

Petiscos piemonteses no La Piola – Foto de Bruno Agostini

Na mesma Piazza Duomo, La Piola é uma casa de perfil mais informal dos mesmos donos, com cardápio dedicado aos clássicos da cozinha piemontesa servidos em sua forma mais pura. Vitello tonnato, ravióli da plin, tajarin al ragù di salsicia di Bra e bollito misto ficam listados no quadro negro, ao lado dos vinhos do dia.

Ainda na área central de Alba, a Osteria dell’Arco é um restaurante ligado ao movimento Slow food, que combina uma carta de vinhos muito boa com um cardápio local preparado com competência.  Tajarin al ragù di salsicia, ravióli da plin e gnocchi di patate con pomodorini estão entre as melhores pedidas. Durante a feira de trufas é um dos restaurantes mais concorridos, e fazer reservas é fundamental.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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