Sauna + piscina com água natural (e boas comidinhas, é claro): um roteiro que lava a alma

Sempre gostei, desde criança, de fazer sauna. Seca e a vapor. Adoro o contraste de temperaturas, o calor, a água gelada, o aroma – mesmo que hoje em dia quase sempre artificial – eucalipto. Sinto que me faz bem. Relaxa. Ajuda o corpo a liberar impurezas. Deixa a sensação de frescor e limpeza. Quando vou viajar e busco um hotel, dou peso grande àqueles que têm sauna, porque este é um programa importante nas minhas horas de lazer. Já deixei de ir a muito hotel só porque não tinha sauna. Nos dias de folga, em Teresópolis, quase sempre vou ao Comary, seja para uma sauna matinal, inaugurando o dia; seja vespertina, a menos deliciosa, mas ainda assim cheia de virtudes; seja a noturna, sessão relaxante, que ajuda a embalar o sono.
Já fiz saunas antológicas, em navios com as paredes de vidro, vendo o sol morrer no Mar Mediterrâneo; em spas de alta classe, com recursos tecnológicos e conforto inimagináveis, muitas vezes com uma bela massagem de lambuja, em hotéis de campo e de cidade, na casa de amigos, em clubes. Não tem tempo ruim, não tem calor ou frio: deu tempo, uma meia horinha, eu me meto na primeira sauna qu puder. Se pudesse, faria todos os dias.
A sauna do Comary seguramente está entre as melhores. Gosto das temperaturas altas, e sauna fria pra mim é um horror, perda de tempo, é como pimenta que não arde. Tanto na seca quanto na vapor deste meu querido clube, ele geralmente tem uma temperatura alta e relativamente estável. Isso é importante. Mas hei de confessar que hoje, com três décadas frequentando saunas ao redor do mundo, tenho uma absoluta convicção: mais importante que a temperatura ou formato da sauna é a água que vem depois – este é, afinal, o prazer maior de uma sauna, o refresco redentor, a ducha forte, o banho. Que seja muito fria. Mas, parece até bobagem, que seja água natural, de rios e cachoeiras, a pureza dos montanhas.
As saunas mais deliciosas eu fiz me banhando com a água natural. Em Visconde de Mauá, Aiuruoca, Itatiaia, Lumiar ou Paraty. Foi em pousadas com saunas junto a rios ou piscinas naturais que eu tive as maiores alegrias, as sensações mais deliciosas.

A grande piscina de água natural do hotel Donati – Foto de Bruno Agostini

Há algum tempo, numa mesma viagem, experimentei três delas, um acontecimento (para ler a reportagem, sobre hotéis vintage nas montanhas do Rio de Janeiro, clique aqui).
Primeiro, em Itatiaia, no antigo, delicioso e tradicionalíssimo Hotel Donati, lá dentro do parque. O conjunto de estilo alpino que abriga a sauna e uma piscina coberta (que no inverno tem lá o seu valor também, e pode ajudar ainda mais o programa a ficar incrível) está bem diante de uma piscina natural gigante. A sensação de – no frio de junho – sair da sauna quente e mergulhar nas águas congelantes é absolutamente incrível. Com o perdão a palavra, lava a alma. Energiza. Relaxa. Limpa. Eletrifica a gente. Sei lá, é delicioso, quase lisérgico, um LSD da natureza, um alucinógeno do corpo. Sempre penso: viva os árabes, os romanos, os gregos, que desenvolveram as técnicas das termas, das saunas a vapor. Viva, viva!!! Viva os finlandeses, esses gênios, que criaram a sauna seca, essa câmara quente e perfumada com eucalipto. Viva, viva!!!
Continuei subindo as montanhas naquela viagem, em direção a Visconde de Mauá, onde acabei me hospedando em dois hotéis diferentes. Primeiro, a pousada Casa Bonita, realmente linda, propriedade aprazível, que tem uma encantadora sauna às margens do Rio Preto , já lá no alto da Maromba, com prainha particular e um poço pequeno, mas suficiente para se sentir a força e a delícia da água pura da montanha. Como aquilo me fez bem.
Já pousada Terras Altas, lá no outro lado, já depois de Visconde de Mauá, mas pertinho da vila propriamente dita, tinha um luxo especial. Sauna dentro do quarto. Com hidromassagem e tudo ao lado. Lindo, delicioso, ainda mais naquele friozinho de início de inverno. Delícia, mas incrível mesmo era depois das saunas da suíte correr para dar um mergulho na piscina de água natural. Dar umas braçadas. Afundar o corpo naquele espelho d’água muito frio, fresco, livre de cloro e outros tratamentos, uma água que corre, que flui, que passa por nós deixando a força da Natureza (acredite se quiser, mas um banho gelado de água natural tem um poder impressionante de energizar a gente, de limpar não só a pele, mas o espírito. É algo meio doido mesmo, meio zen, meio místico). Ao lado da piscina, em meio ao verde exuberante, uma sauna aquecida pela lenha, deliciosa pra gente sair direto para a água fria.
Essa viagem me energizou. Muito.
Em outras, isoladamente, tive momentos memoráveis. Em Paraty, por exemplo, encontramos o sensacional restaurante Le Gite d’Indaiatiba, um dos melhores restaurantes do Litoral Sul do Rio de Janeiro (tanto assim, que os milionários com seus iates em Angra e Ubatuba às vezes aterrissam por lá, aterrissam mesmo, com seus helicópteros que encontram um disputado heliporto, com três vagas, que já vi inteiramente ocupadas). Sou fã daquele lugar. Ali, cada refeição é uma glória. O couvert com pães caseiros. A quiche de palmito com castanha-do-pará e roquefort. A sopa de cebola, para os dias mais frios do inverno. O magnífico ravióli feito com folhas de taioba. O ceviche de peixe e frutas. O Mafé Senegalês (receita tradicional africana de frango em molho de amendoins). O adorado Red Hot Chili Camarões, com os crustáceos grelhados em azeite perfumado e servidos com risoto de pitangas. A moqueca de siri catado. As lulas das llhas, em molho de curry caseiro, com coco e pimentas. E, a estrela maior do imutável e incrível menu da casa, resultado do casamento de um francês com uma mineira, o peixe à manga-rosa, grelhado e coberto com um incrível e aveludado molho de manga com gengibre, na minha opinião um dos melhores pratos de peixe do Brasil, em toda a sua simplicidade. Pois é, até na hora de falar de sauna este escriba acaba tratando de comida… O que quero dizer é simples: o Le Gite d’Indaiatiba vale a viagem. Mesmo para quem não gosta de sauna ou banho de cachoeira (para ler uma reportagem, clique aqui).
No site deles, um texto descreve o lugar. “Em plena Serra da Bocaina, o restaurante tem acesso por estrada asfaltada sem sinalização. O esforço, naturalmente, compensa, é provável que seja o único restaurante francês do mundo em que o cliente, enquanto aguarda o pedido, pode dar um mergulho em uma cachoeira.Em que outro pais haveria um lugarzinho marcando o encontro entre a sofisticação de uma das culinárias mais festejadas do planeta e as delícias da natureza tropical?”
Pois é. No restaurante, que tem redes espalhadas na varanda, logo acima, existe uma piscina natural, estreita e comprida, própria para nadar em suas águas frescas e naturais que descem a Serra da Bocaina. Uma delícia, um prazer. Mas no local também funciona uma pousada, simples, no meio do mato. Um dos destaques é a sauna, à beira-rio, com vista para a mata, e o curso d’água. Saímos direto da sauna para as bênçãos de Janaína, a Rainha das Águas. Uma glória. A sauna é só para hóspedes. A cachoeira é aberta a todos os clientes do restaurante. Se não me falha a memória (estive lá, como hóspede, há quase 11 anos (Maria tinha meses de vida), tem até um lugar para a gente se sentar).

A piscina de água natural do Parador Lumiar – Foto de Bruno Agostini

Falando em sauna, água pura e comida incrível, o Parador Lumiar, tema de post recente neste site. Passa as tardes nas mesas à beira da piscina, provando uns petiscos, bebendo umas cervejas locais e me revezando entre a sauna e a piscina. Aromatizada com capim-limão da horta da própria pousada, a sauna é a vapor, e está a dois passos da água fria da piscina, que é corrente e natural, sem cloro, fresca, pura e redentora.
Em Aiuruoca, foi na Pousada Pedra Fina, a melhor do pedaço, no Vale do Matutu, um dos lugares para aprazíveis onde já estive (para ler a reportagem, clique aqui). A sauna é deliciosa, e logo acima está uma piscina, de água natural, livre de cloros e tratamentos, como as outras citadas aqui, límpida, pura, fresca, gelada, redentora, energizante e mágica. Gostei do texto do site deles, e reproduzo aqui uma parte: “Pode-se, ainda, tomar um banho revigorante nos poços e na cachoeira do rio de águas límpidas que corre pela Pousada ou na piscina de 80.000 litros de água corrente natural com cascata, conjugada a uma terapêutica sauna Finlandesa semi-úmida, aquecida à lenha. À noite o programa é divertir-se com alguns jogos, como sinuca ou futebol de mesa, fazer a leitura de um livro ou assistir um filme. Pode-se, também, curtir uma fogueira no Círculo do Fogo contemplando estrelas tomando um chá quente ou um bom vinho junto à lareira.”
É nem por aí mesmo.

 

admin

Bruno Agostini é carioca, jornalista e fotógrafo. Especializado em turismo, gastronomia, vinhos e cervejas, viaja o mundo atrás de boas histórias, e da boa mesa. Com passagens por empresas como Jornal do Brasil, O Globo e Editora Abril, foi inspetor de restaurantes do Guia Quatro Rodas e é autor de livros, como guias de viagem, vinhos e restaurantes. Atualmente atua como freelancer, escrevendo para veículos especializados, entre jornais, sites e revistas, como Época Rio, Top Destinos, Carbono Uomo, Eatin’Out e Baco, entre outras. Contato: bagostini@gmail.com Instagram: @brunoagostinifoto

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